Miscelâneas do Eu

Expressar as ideais, registrar os pensamentos, sonhos, devaneios num pequeno e simplório blog desta escritora amadora que vos fala são as formas que encontrei para registrar a existência neste mundo.

Não cabe a mim julgar certo ou errado e sim, escrever o que sinto sobre o que me cerca.

A única coisa que não abro mão é do amor pelos seres humanos e incompreensão diante da capacidade de alguns serem cruéis com sua própria espécie.

Nana Pimentel

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Nelson Rodriguês e textos

Simplesmente paixão. É isso que Nelson Rodriguês desperta em mim. Paixão por sua capacidade criativa em situações inusitadas, corriqueiras e enlouquecedoras. Adoro seu trabalho e posto aqui alguns deles.



Nelson Rodrigues



O beijo no asfalto
Estilo Tragédia contemporânea contrastando poesia e vulgaridade. Conserva-se fiel ao expressionismo freudiano e realismo, o autor vem de encontro a preconceitos e inseguranças bem como à falsidade, ao juízo fundado na aparência e a condições unânimes. Enredo Arandir testemunha um atropelamento e ao socorrer a vítima, dálhe um beijo na boca a pedido do agonizante. É imediatamente acusado de homossexualismo pela imprensa e pela polícia. Ridicularizado perante a opinião pública os amigos e desamparado pela esposa (Selminha) vem a refugiar-se em uma pensão É visitado pelo sogro (Aprígio) que declara-lhe seu ódio, revelando-se apaixonado por ele e com ciúmes pelo fato de Arandir ter-se casado com Selminha e por vir a beijar outro . Com dos tiros Arandir é morto por Aprígio. Fragmento "(...) Em toda a minha vida, a única coisa que salva é o beijo no asfalto (...) É lindo! é lindo, eles não entendem. Lindo beijar quem está morrendo (grita). Eu não me arrependo! Eu não me arrependo." Cale-se. Preste Atenção "O morto é o grande personagem invisível, Arandir ao beijar o agonizante, beijou a morte na boca".

Nelson Rodrigues Lua de Mel
Seguindo a sugestão do sogro, de não quis investigar as causas da mudança da esposa. Tratou de extrair o máximo possível da situação, tanto mais que passara a viver num regime de lua-de-mel. Dias depois, porém, recebe uma minuciosíssima carta anónima, com dados, nomes, endereços, duma imensa verosimilhança. O missivista desconhecido começava assim: "Tua mulher e o Cunha...". O Cunha era, talvez, o seu maior amigo e jantava três vezes por semana ou, no mínimo, duas, com o casal. A carta anónima dava até o número do edifício e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes se encontravam. Filadelfo lê aquilo, relê e rasga, em mil pedacinhos, o papel indecoroso. Pensa no Cunha, que é solteiro, simpático, quase bonito e tem bons dentes. Uma conclusão se impõe: sua felicidade conjugal, na última fase, é feita á base do Cunha. Filadelfo continuou sua vida, sem se dar por achado, tanto mais que Jupira revivia, agora, os momentos áureos da lua-de-mel. Certa vez jantavam os três, quando cai o guardanapo de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente, debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por cima dos outros. Passa-se o tempo e Filadelfo recebe a noticia: o Cunha ficara noivo! Vai para casa, preocupadíssimo. E, lá, encontra a mulher de bruços, na cama, aos soluços. Num desespero obtuso, ela diz e repete: - Eu quero morrer! Eu quero morrer! Filadelfo olhou só: não fez nenhum comentário. Vai numa gaveta, apanha o revólver e sai á procura do outro. Quando o encontra, cria o dilema: - Ou você desmancha esse noivado ou dou-lhe um tiro na boca, seu cachorro! No dia seguinte, o apavorado Cunha escreve uma carta ao futuro sogro, dando o dito por não dito. Á noite, comparecia, escabreado, para jantar com o casal. E, então, á mesa, Filadelfo vira-se para o amigo e decide: - Você, agora, vem jantar aqui todas as noites! Quando o Cunha saiu, passada a meia-noite, Jupira atira-se nos braços do marido: - Você é um amor!

Nelson Rodrigues Misericórdia
Foi uma conversa que se alongou por toda uma noite. No seu desespero inicial, ele berrava: "Cínica! Cínica!". E soluçava: "Nunca teve um beijo meu, que sou seu noivo, e vai ter o filho do outro!". O pai, porém, conseguiu, após poucos, aplacá-lo. Sustentou a tese de que todos nós, afinal de contas, somos falíveis e, particularmente, as mulheres: "Elas são de vidro", afirmava. Alta madrugada, o pobre-diabo pergunta: "E eu? Devo fazer o quê?". Justiça se lhe faça - o velho foi magnífico: "Perdoar. Perdoa, meu filho, perdoa!". Quis protestar: "Ela merece um tiro!". Mais que depressa, seu Notário atalha: — Ela, não, nunca! Ele, sim! Ele merece! — Quem? Baixa a voz: "O pai da criança! Esse filho não caiu do céu, de pára-quedas! Há um culpado". Pausa. os dois se entreolham. Seu Notário segura o filho pelos dois braços: — Antes de ti, Edila teve um namorado. Deve ter sido ele. Se fosse comigo, eu matava o cara que... Ergue-se, transfigurado, quase eufórico: "Tem razão, meu pai! O senhor sempre tem razão!".

Nelson Rodrigues Mudança
Um mês depois, ele chega em casa, do trabalho, e acontece uma coisa sem precedentes: a mulher, pintada, perfumada, se atira nos seus braços. Foi uma surpresa tão violenta que Filadelfo perde o equilíbrio e quase cai. Em seguida, ela aperta entre as mãos o seu rosto e o beija na boca, num arrebatamento de namorada, de noiva ou de esposa em lua-de-mel. Ele apanha o jornal, que deixara cair. Maravilhado, pergunta: - Mas que é isso? Que foi que houve? Jupira responde com outra pergunta: - Não gostou? Ele senta confuso. - Gostar, gostei, mas... - Ri: - Você não é assim, você não me beija nunca. Jupira tem um gesto de uma petulância que o delícia: vem sentar-se no seu colo, encosta o rosto no dele. Filadelfo é acariciado. Acaba perguntando: - Explica este mistério. Aconteceu alguma coisa. Aconteceu? Ela suspira: - Mudei ora!

Nelson Rodrigues Novo parto
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada ás pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: "Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário: - Meus dentes estão doendo! E, de fato, o grande termómetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura. A parteira duvidou, mas, dai a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha. Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão: - Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!

Nelson Rodrigues O amor imortal
Há três ou quatro semanas que o Menezes falava num novo amor imortal. Contava, para os companheiros embasbacados: - "Mulher de um pediatra, mas olha: - um colosso! ". Queriam saber: - "Topa ou não topa?". Esfregava as mãos, radiante: - Estou dando em cima, salivando. Está indo. Todas as manhãs, quando o Menezes pisava no escritório, os companheiros o recebiam com a pergunta: - "E a cara?". Tirando o paletó, feliz da vida, respondia: - Está quase. Ontem, falamos no telefone quatro horas! Os colegas pasmavam para esse desperdício: - "Isso não é mais cantada, é ...E o vento levou". Meireles sustentava o princípio que nem a Ava Gardner, nem a Cleópatra justificam quatro horas de telefone. Menezes protestava: - Essa vale! Vale, sim senhor! Perfeitamente, vale! E, além disso, nunca fez isso! É de uma fidelidade mórbida! Compreendeu? Doentia! E ele, que tinha filhos naturais em vários bairros do Rio de Janeiro, abandonara todos os outros casos e dava plena e total exclusividade à esposa do pediatra. Abria o coração no escritório: - Sempre tive a tara da mulher séria! Só acho graça em mulher séria! Finalmente, após quarenta e cinco dias de telefonemas desvairados, eis que a moça capitula. Toda a firma exulta. E o Menezes, passando o lenço no suor da testa, admitia: - "Custou, puxa vida! Nunca uma mulher me resistiu tanto!". E, súbito, o Menezes bate na testa: - É mesmo! Está faltando um detalhe! O apartamento! Agarra o Meireles pelo braço: - "Tu emprestas o teu?". O outro tem um repelão pânico: - Você é besta, rapaz! Minha mãe mora lá! Sossega o periquito! Mas o Menezes era teimoso. Argumenta: - Escuta, escuta! Deixa eu falar. A moça é séria. Séria pra burro. Nunca vi tanta virtude na minha vida. E eu não posso levar para uma baiúca. Tem que ser,olha: - apartamento residencial e familiar. É um favor de mãe pra filho caçula. O outro reagia: - "E minha mãe? Mora lá, rapaz!". Durante umas duas horas, pediu por tudo: - Só essa vez. Faz o seguinte: - manda a tua mãe dar uma volta. Eu passo lá duas horas no máximo! Tanto insistiu que, finalmente, o amigo bufa: - Vá lá! Mas escuta: - pela primeira e última vez! Aperta a mão do companheiro: - És uma mãe!

Nelson Rodrigues Frases
- O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade. - Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bemsucedido não interessa a ninguém. - Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de "ilustre", de "insigne", de "formidável", qualquer borra-botas. - A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem. - O brasileiro não está preparado para ser "o maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade. - Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar. - Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível. - O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas. - Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria. - Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza. - O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.

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- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. - Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — "Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!". Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão! - Em nosso século, o "grande homem" pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta. - O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda. - Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma. - Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca. - Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.

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Nelson Rodrigues O beijo
Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse sobre as possibilidades ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu, com muito empenho, sobre um ponto que considerava importantíssimo: - Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca! A garota, espantada, protestou - Ora, mamãe! E a velha: - Ora o quê? É isso mesmo! Sem beijo não há nada, está ,.tudo muito bem. OK. E com beijo pode acontecer o diabo. Você é muito menina e talvez não perceba certas coisas. Mas pode ficar certa: tudo que acontece de ruim, entre um homem e uma mulher, começa num beijo!

Nelson Rodrigues O canalha
Quando soube que a noiva tinha viajado de lotação com o Dudu, sentada no mesmo banco, pôs as mãos na cabeça: - Com o Dudu? E ela: - Com o Dudu, sim. As duas mãos enfiadas nos bolsos, andando de um lado para outro; ele estaca, finalmente, diante da pequena: - Olha, Cleonice, vou te pedir um favor de mãe pra filho. Pode ser? - Claro. Puxa um cigarro: - É o seguinte: de hoje em diante, ouviu?, de hoje em diante, tu vais negar o cumprimento ao Dudu. Admirou-se: - Por que, meu anjo? Ele explicou - Porque o Dudu é um cínico, um crápula, um canalha abjeto. Um sujeito que não respeita nem poste e que é capaz até de dar em cima de uma cunhada. O simples cumprimento de Dudu basta para contaminar uma mulher. Percebeste? - Percebi. Ainda excitado, ele enxuga com o lenço o suor da testa: - Pois é. Passou. Mas a verdade é que Cleonice ficou impressionadíssima. Dava-se com o Dudu, sem intimidade, mas cordialmente. Dançara com ele umas duas ou três vezes. Mas como o Dudu fosse fisicamente simpático e educadíssimo, Cleonice guardara dos seus contatos acidentais uma boa impressão. Caiu das nuvens ao saber que de era capaz de "dar em cima de uma cunhada" Teria, porém, esquecido. Voltando á carga, sentado com a noiva num banco de jardim público, ele começa: - Meu anjo, tu sabes que eu não tenho ciúmes. Não sabes? - Sei. Pigarreia: - Só tenho ciúmes de uma pessoa o Dudu. E nunca te esqueças: é um canalha, talvez o único canalha vivo do Brasil. Todo mundo tem defeitos e qualidades. Mas o Dudu só tem defeitos. Inexperiente da vida e dos homens, ela fazia espanto: - Mas isso é verdade? Batata? Exagerou:

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- Batatíssima! Quero ser mico de circo se estou mentindo! - E repetia, num furor terrível e inofensivo: - Indigno de entrar numa casa de família!

Obsessão
Então, sem querer, sem sentir, Lima foi fazendo do Dudu o grande e absorvente personagem de suas conversas. Argumentava: - Você é muito boba, muito inocente, nunca teve outro namorado senão eu. Queres um exemplo? sou teu noivo, vou casar contigo. Muito bem. O que é que houve entre nós dois? Uns beijinhos, só. É ou não é? Impressionada, admitiu: - Lógico! Lima continua: - Figuremos a seguinte hipótese: que, em vez de mim, fosse teu namorado o Dudu Tu pensas que de ia te respeitar como eu te respeito? Duvido! Duvido! Dudu não tem sentimento de família, de nada! É uma besta-fera, uma hiena, um chacal! Crispando-se, Cleonice suspira: "Parece impossível que existam homens assim". Lima prossegue: "Vou te dizer uma coisa mais: o Dudu olha para uma mulher como se a despisse mentalmente!"

A festa
Dias depois, Cleonice está conversando com umas coleguinhas quando alguém fala do Dudu. Então, ela olha para os lados e baixa a voz: "Ouvi dizer que o Dudu deu em cima de uma cunhada". Uma das presentes, que conhecia o rapaz, a família do rapaz, protesta: "Mas o Dudu nem tem cunhada!''. Mais tarde a espantadíssima Cleonice interpela o Lima. Ele não se dá por achado: - Eu não disse que o Dudu deu em cima de uma cunhada. Eu disse que "daria" caso tivesse. Você entendeu mal. Mais alguns dias e os dois, vão a uma festa, em casa de família. Entram e têm, imediatamente, o choque: Dudu estava lá! Junto de uma janela, com o seu bonito perfil, fumando de piteira, pálido e fatal, atraia todas as atenções. Lima aperta o braço da noiva. Diz, entredentes: "Vamos embora". Ela, espantada, pergunta: "Por quê?". O noivo a arrasta: - O Dudu está ai. E não convém, ouviu? Não convém! Imagina se ele tem o atrevimento de te tirar para dançar Deus me livre!

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O medo
Na volta da festa, Cleonice faz, pela primeira vez, um comentário irritado: - Fala menos nesse Dudu! Sabe que eu só penso nele? Te digo mais: tenho medo! Lima estaca: "Medo de que e por que, ora essa?". Ela parece confusa: - Essas coisas impressionam uma mulher. - E repete o apelo: - Não fala mais nesse cara' É um favor que te peço! Ele obstinou-se: "Falo, sim, como não? Você precisa olhar o Dudu como um verme!". Cleonice suspirou. - Você sabe o que faz!

Ódio
Corria o tempo. Todos os dias, o Lima aparecia com uma novidade: "Vi aquela besta com outra!". E se havia uma coisa que doesse nele, como uma ofensa pessoal, era a escandalosa sorte do "canalha" com as outras mulheres. Nos seus desabafos com a noiva, Lima exagerava: "Cheio de pequenas! Tem namoradas em todos os bairros!". Um dia, explodiu: - Vocês, mulheres, parece que gostam dos canalhas! Por exemplo: o meu caso. Sem falsa modéstia, sou um sujeito decente, respeitador e outros bichos. Pois bem. Não arranjava pequena nenhuma. Até hoje não compreendo como você gostou de mim, fez fé comigo e me preferiu ao Dudu. - Pausa e baixa a voz, na confissão envergonhada: - Porque o Dudu me tirou todas as outras namoradas, uma por uma. Era essa, com efeito, a origem do seu ódio por Dudu, do despeito que o envenenava.

As bodas
Chega o dia do casamento. Poucos minutos antes da cerimônia civil, Lima, transfigurado, ainda diz ao ouvido da noiva: "O Dudu roubou todas as minhas pequenas, menos você!". Pois bem. Casam-se no civil e, mais tarde, no religioso. Quase à meia-noite, estão os dois sozinhos, face a face, no apartamento que seria a nova residência. Ele, nervosíssimo, baixa a voz e pede: "Um beijo!". Ela, porém, foge com o rosto: "Não!". Lima não entende. Cleonice continua:

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- Falaste tanto e tão mal do Dudu que eu me apaixonei por ele. Eu não trairei o homem que eu amo nem com o meu marido. Lima compreendeu que a perdera. Sem uma palavra deixa o quarto nupcial. De pijama e chinelos veio para a porta da rua. Senta-se no meio-fio e põe-se a chorar.

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Nelson Rodrigues O decote
Era uma mãe enérgica, viril, à antiga. Diabética, asmática, com sessenta anos nas costas, apanhou um táxi na Tijuca e deu o endereço do filho, em Copacabana. Chegou de surpresa. A nora, que não gostava da sogra perspicaz e autoritária, torceu o nariz. Já o filho, que a respeitava acima de tudo e de todos, precipitou-se, de braços abertos, trêmulo de comoção: — Oh, que milagre! Deu-lhe o braço. Há dois anos, com efeito, que D. Margarida não entrava naquela casa. Indispôs-se com a nora, cuja beleza a irritava, e cortou o mal pela raiz: "Não ponho mais os pés aqui, nunca mais". Clara deu graças a Deus. Aquela sogra, sem papas na língua, a exasperava. E Aderbal, que era um bom filho e melhor marido, limitou-se a uma exclamação vaga e pusilânime: "Mulher é um caso sério!". Foi só. Eis que, dois anos depois, abandonando sua rancorosa intransigência, D. Margarida punha os pés naquela casa. Foi um duplo sacrifício, fisico e moral, que ela se impôs, heroicamente. Trancou-se com o filho no gabinete. Perguntou: — Sabe por que eu vim aqui? E de, impressionado: — Por quê? D. Margarida respirou fundo: — Vim lhe perguntar o seguinte: você é cego ou perdeu a vergonha? Não esperava por esse ataque frontal. Ergueu-se, desconcertado: "Mas como?". Apesar dos seus achaques, que faziam de cada movimento uma dor, D. Margarida pôs-se de pé também. Prosseguiu, implacável: — sua mulher anda fazendo os piores papéis. Ou você ignora? — E, já com os olhos turvos, uma vontade doida de chorar, interpelava-o: — Você é ou não é homem? Foi sóbrio: — Sou pai.

O pai
Há quinze anos atrás, os dois se casaram, no civil e religioso, e, como todo mundo, numa paixão recíproca e tremenda. A lua-de-mel durou o quê? Uns quinze, dezesseis dias. Mas, no décimo sétimo dia, encontrou-se Aderbal com uns amigos e, no bar, tomando uísque, de disse, por outras palavras, o seguinte: "O homem é polígamo por natureza. Uma mulher só não basta!". Quando chegou em casa, tarde, semibêbado, Clara o interpelou:

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"Que papelão, sim senhor!". Ele podia ter posto panos quentes, mas o álcool o enfurecia. Respondeu mal; e ela, numa desilusão ingênua e patética, o acusava — "Imagine! Fazer isso em plena lua-de-mel!". A réplica foi grosseira: — Que lua-de-mel? A nossa já acabou! Durante três dias e três noites, Clara não fez outra coisa senão chorar. Argumentava: "se ele fizesse isso mais tarde, vá lá. Mas agora...". A verdade é que jamais foi a mesma. Um mês depois, acusava os primeiros sintomas de gravidez, que o exame médico confirmou. E, então, aconteceu o seguinte: enquanto ela, no seu ressentimento, esfriava, Aderbal se prostrava a seus pés em adoração. Sentimental da cabeça aos pés, não podia ver uma senhora grávida que não se condoesse, que não tivesse uma vontade absurda de protegê-la. Lírico e literário, costumava dizer: "A mulher grávida merece tudo!". No caso de Clara, ainda mais, porque era o seu amor. No fim do período, nasceu uma menina. E foi até interessante: enquanto Clara gemia nos trabalhos de parto, Aderbal, no corredor, experimentava a maior dor de dente de sua vida. Mas ao nascer a criança a nevralgia desapareceu, como por milagre. E, desde o primeiro momento, ele foi, na vida, acima de tudo, o pai. Esquecia-se da mulher ou negligenciava seus deveres de esposo. Mas, jamais, em momento algum, deixou de adorar a pequena Mirna. Incidia em todas as inevitáveis infantilidades de pai. Perguntava: "Não é a minha cara?". Os parentes, os amigos, comentavam: — Aderbal está bobo com a filha!

A esposa
Quando Mirna fez oito anos, ele recebeu uma carta anônima em termos jocosos: "Abre o olho, rapaz!". Pela primeira vez, caiu em si. Começou a observar a mulher. Mãe displicente, vivia em tudo que era festa, exibindo seus vestidos, seus decotes, seus belos ombros nus. Um dia chamou a mulher: "Você precisa selecionar mais suas amizades...". Clara, limando as unhas, respondeu: "Vê se não dá palpite, sim? Sou dona do meu nariz!". Desconcertado, quis insistir. Ela, porém, gritou: "Você nunca me ligou! Nunca me deu a menor pelota!". Aderbal teve que dar a mão á palmatória. — Bem. Eu não me meto mais. Mas quero lhe dizer uma coisa: nunca se esqueça que você tem de prestar contas á sua filha. Foi malcriada: — Ora não amola! Foi esta a última vez. Nunca mais discutiram. Aderbal passou a ser apenas uma testemunha silenciosa e voluntariamente cega da vida frívola da mulher. Tinha uma idéia fixa, que era a filha. Uma vez na vida, outra na morte, dizia á esposa: "Nunca se esqueça que você é mãe". E era só. Agora que Mirna completava quinze anos, D. Margarida invadia-lhe a casa. Discutiram os dois. A velha partia do seguinte principio:

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Clara era infiel e, portanto, o casal devia separar-se e, depois, desquitar-se. Desesperado, Aderbal teve uma espécie de uivo: "E minha filha?". D. Margarida explodiu: "Ora pílulas!". Ele foi categórico: — Olhe, minha mãe: eu não existo. Compreendeu? Quem existe é a minha filha. Não darei esse desgosto á minha filha, nunca! A velha usou todos os seus argumentos, mas em vão. Aderbal dava uma resposta única e obtusa: "Pode ter amante, pode ter o diabo, mas é mãe de minha filha. E se minha filha gosta dessa mulher ela é sagrada para mim, pronto, acabou-se!". Por fim, já sem paciência, D. Margarida saiu, apoiada na sua bengala de doente. E, da porta, gritou: — Você precisa ter mais vergonha nessa cara!

Pecadora
Uns quarenta minutos depois, Aderbal foi falar com Mirna: "Vem cá, minha filha: você gosta muito de sua mãezinha?". Ela pareceu maravilhada com a pergunta: "Você duvida, papai?". Pigarreou, disfarçando: "Brincadeira minha". Sentada no colo paterno, a pequena, que era parecida com Clara, suspirou. "Gosto muito de mamãe e gosto muito de você". Atormentado, ele deixou passar uns dois dias. No terceiro dia, discutiu com a mulher. E definiu a situação: — Eu sei que você não gosta de mim. Mas respeite, ao menos, sua filha. A discussão podia ter tido um tom digno. Mas Clara estava tão saturada daquele homem que não resistiu. A voz do marido, o gesto, a roupa, as mãos, a pele — tudo a desgostava. Com dezesseis anos de casada, percebia que num casal, pior do que o ódio, é a falta de amor Perdeu a cabeça, disse o que devia e o que não devia. Aderbal quis conservar a serenidade: "Minha filha não pode saber de nada". Então, Clara teve um acinte desnecessário, uma crueldade inútil; interpelava-o: "Você fala de sua filha. E você? Afinal, o marido é você!". Muito pálido, Aderbal emudeceu. Ela continuou, agravando a humilhação do marido: "Ou você vai dizer que não sabe?". Na sua cólera contida, quis sair do quarto. Mas já Clara se colocou na sua frente, resoluta, barrando-lhe o caminho Voltara, há pouco, de uma festa. Estava de vestido de baile, num decote muito ousado, os ombros morenos e nus, perfumadíssima. E, então, com as duas mãos nos quadris, fez a desfeita: — Não vá saindo, não. — E perguntava: — Você não me provocou? Agora agüente! E ele, em voz baixa: — Fale baixo. Sua filha pode ouvir! Sem querer, Clara obedeceu. Falou baixo, mas, pela primeira vez, disse tudo. Assombrado, diante dessa maldade que irrompia, sem pretexto, gratuita e terrível — ele se limitava: "Por que você diz isso? Por quê?".

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Queria interrompê-la: "Cale-se! Cale-se! Eu não lhe perguntei nada! Eu não quero saber!". Mas a própria Clara não se continha mais: — Você conhece fulano? Seu amigo, deve favores a você, o diabo. Pois ele foi o primeiro! — Fulano? Mentira!... E ela: — Quero que Deus me cegue se minto! Sabe quem foi o segundo? Sicrano! Queres outro? Beltrano. Ao todo, dezessete! Compreendeu? Dezessete! Então, desfigurado, ele disse: — Só não te mato agora mesmo porque minha filha gosta de ti! Disse isso e saiu do quarto.

A filha
Dez minutos depois, de bruços no divã, ele chorava, no seu ódio impotente. E, súbito, sente que uma mão pousa na sua cabeça. Vira-se, rápido. Era a filha que, nas chinelinhas de arminho, no quimono rosa e bordado, descera de mansinho. Ajoelhou-se a seu lado. Desconcertado, passou as costas das mãos, limpando as lágrimas. Então, meiga como nunca, solidária como nunca Mirna disse: "Eu ouvi tudo. Sei de tudo". Lenta e grave, continuou: — Eu não gosto de minha mãe. Deixei de gostar de minha mãe. Ele pareceu meditar, como se procurasse o sentido misterioso dessas palavras. Levantou-se, então. Foi a um móvel e apanhou o revólver na gaveta. Subiu, sem pressa. Diante do espelho, Clara espremia espinhas. Ao ver o marido, pôs-se a rir. Boa, normal, afável com os demais, só era cruel com aquele homem que deixara de amar. Seu riso esganiçado e terrível foi outra maldade desnecessária. Então, Aderbal aproximou-se. Atirou duas vezes no meio do decote.

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Nelson Rodrigues O defunto
Entrou no quarto, deitou-se na cama, vestido, de paletó, colarinho, gravata, sapatos. Uniu bem os pés; entrelaçou as mãos, na altura do peito; e assim ficou. Pouco depois, a mulher surgiu na porta. Durante alguns momentos esteve imóvel e muda, numa contemplação maravilhada. Acabou murmurando: — O jantar está na mesa. Ele, sem se mexer, respondeu: — Pela ultima vez: morri. Estou morto. A outra não insistiu. Deixou o quarto, foi dizer à empregada que tirasse a mesa e que não faziam mais as refeições em casa. Em seguida, voltou para o quarto e lá ficou. Apanhou um rosário, sentou-se perto da cama: aceitava a morte do marido como tal; e foi como viúva que rezou. Depois do que ela própria fazia nos lotações, nada mais a espantava. Passou a noite fazendo quarto. No dia seguinte, a mesma cena. E só saiu, à tarde, para sua escapada delirante, de lotação. Regressou horas depois. Retomou o rosário, sentou-se e continuou o velório do marido vivo.

Nelson Rodrigues O desgraçado
Não mentira ao sogro. Sua vida conjugal era, de fato, de uma melancolia tremenda. Descontado o período da lua-de-mel, que ele estimava em oito dias, nunca mais fora bem tratado. Sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente de visitas. E, certa vez, durante um jantar com outras pessoas, ela o fulmina, com a seguinte observação, em voz altíssima. - Vê se pára de mastigar a dentadura, sim? Houve um constrangimento universal. O pobre do marido, assim desfeiteado, só faltou atirar-se pela janela mais próxima. Após três anos de experiência matrimonial, eleja não esperava mais nada da mulher, senão outros desacatos. E só não compreendia que Jupira, amabilíssima com todo mundo, fizesse uma excepção para ele, que era, justamente, o marido. Depois de Ter deixado o sogro, voltou para casa desesperado. Chega, abre a porta, sobe a escada e quando entra no quarto recebe a intimação: - Não acende a luz! Obedeceu. Tirou a roupa no escuro e, depois, andou caçando o pijama, como um cego. E quando, afinal, pôde deitar-se, fez uma reflexão melancólica: há dez meses ou mesmo um ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois. O máximo que ele, intimidado, se permitia, era roçar com os lábios a face da esposa. Se queria ser carinhoso demais, ela o desiludia: "Na boca não! Não quero!". Outra coisa que o amargurava era o seguinte: a negligência da mulher no lar. Não se enfeitava, não se perfumava. Deitado ao seu lado, ele pensava agora, lembrando-se da teoria do sogro: - "Será que a esposa honesta também precisa cheirar mal?".

Nelson Rodrigues O idílio
Foi um namoro tranqüilo, macio, sem impaciências, arrebatamentos. Sob a inspiração paterna, ele planificou o romance, de alto a baixo, sem descurar de nenhum detalhe. Antes de mais nada, houve o seguinte acordo: - Eu não toco em ti até o dia do casamento. Edila pergunta: - E nem me beija? Enfiou as duas mãos nos bolsos: - Nem te beijo. OK? Encarou-o, serena: - OK. Dir-se-ia que este assentimento o surpreendeu. Insinua: - Ou será que você vai sentir falta? - De quê? E Salviano, lambendo os beiços: - Digo falta de beijos e, enfim, de carinho. Sorriu, segura de si: - Não. Estou cem por cento com teu pai. Acho que teu pai está com a razão. Salviano não sabe o que dizer. Edila continua, com o seu jeito tranqüilo: - Sabe que essas coisas não me interessam muito? Eu acho que não sou como as outras. Sou diferente. Vejo minhas amigas dizerem que beijo é isso, aquilo e aquilo outro. Fico boba! E te digo mais: eu tenho, até, uma certa repugnância. Olha como eu estou arrepiada, olha, só de falar nesse assunto!

Nelson Rodrigues O inocente
Pôde, assim; desviar da noiva o seu ódio De manhã, passou pela casa de Edila. Com apavorante serenidade, em voz baixa, pediu o nome do culpado. Diante dele, a garota torcia e destorcia as mãos: "Não digo! Tudo, menos isso!". Ele sugeria, desesperado: "Foi o Pimenta?". O Pimenta era o antigo namorado de Edila. Ela dizia: "Não sei, não sei!". Salviano saiu dali certo. Procurou o outro, que conhecia de nome e de vista. Antes que o Pimenta pudesse esboçar um gesto, matou-o, com três tiros, à queima-roupa. E fez mais. Vendo um homem, um semelhante, agonizar aos seus pés, com um olhar de espanto intolerável, ele virou a arma contra si mesmo e estourou os miolos. Mais tarde, desembaraçado o corpo, foi instalada a câmara-ardente na casa paterna. Alta madrugada, havia, na sala, três ou quatro pessoas, além da noiva e de seu Notário. Em dado momento, o velho bate no ombro de Edila e a chama para o corredor. E, lá, ele, sem uma palavra, aperta entre as mãos o rosto da pequena e a beija na boca, com loucura, gana. Quando se desprendem, seu Notário, respirando forte, baixa a voz: — Foi melhor assim. Ninguém desconfia. Ótimo. Voltaram para a sala e continuaram o velório.

Nelson Rodrigues O ladrão
Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!" Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: "Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido de noiva!". Para quê? Ela se insultou: - Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim! Chamaram até a policia. O mistério era a verdade, alucinante: quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda - enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero ser enterrado assim".

Nelson Rodrigues O Pediatra
Saiu do telefone e anunciou para todo o escritório: - Topou! Topou! Foi envolvido, cercado por três ou quatro companheiros. O Meireles cutuca: - Batata? Menezes abre o colarinho: - "Batatíssima!". Outro insiste: - Vale? Justifica? Fez um escândalo: - Se vale? Se justifica? Ó rapaz! É a melhor mulher do Rio de Janeiro! Casada e te digo mais: séria pra chuchu! Alguém insinuou: - "Séria e trai o marido?". Então, o Menezes improvisou um comício em defesa da bem-amada: - Rapaz! Gosta de mim, entende? De mais a mais, escuta: o marido é uma fera! O marido é uma besta! Ao lado, o Meireles, impressionado, rosna: - Você dá sorte com mulher! Como você nunca vi! - E repetia, ralado de inveja: - Você tem uma estrela miserável!

Nelson Rodrigues O velho
Desde menino, Salviano se habituara a prestar contas quase diárias ao pai, de suas idéias, sentimentos e atos. O velho, que se chamava Notário, ouvia e dava os conselhos que cada caso comportava. Durante todo o namoro com Edila, seu Notário esteve, sempre, a par das reações do filho e da futura nora. Salviano, ao terminar as confidências, queria saber: "Que tal, papai?". Seu Notário apanhava um cigarro, acendia-o e dava seu parecer, com uma clarividência que intimidava o rapaz: — Já vi que essa menina tem o temperamento de uma esposa cem por cento. A esposa deve ser, mal comparando, e sob certos aspectos, um paralelepípedo. Essas mulheres que dão muita importância à matéria não devem casar. A esposa, quanto mais fria, mais acomodada, melhor! Salviano retransmitia, tanto quanto possível, para a namorada, as reflexões paternas. Edila suspirava: "Teu pai é uma simpatia!". De vez em quando, o rapaz queria esquecer as lições que recebia em casa. Com uma salivação intensa, o olhar rutilante, tentava enlaçar a pequena. Edila, porém, era irredutível; imobilizava-o: — Quieto! Ele recuava: — Tens razão!

Nelson Rodrigues O vestido de noiva
Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espectacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana esse modelo?" A reacção do rapaz foi surpreendente. Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura: - Que beleza, meu Deus! Que maravilha! Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: "Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimónia, brincou: - Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!

Nelson Rodrigues Os Noivos
Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou: - Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo. Ele obedeceu: - Pronto, papai. O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo: - Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria? Pra casar? Vermelho, respondeu: - Minhas intenções são boas. O outro esfrega as mãos. - Ótimo! Edila é uma moça direita, moça de família. E o que eu não quero para minha filha, não desejo para a filha dos outros. Agora, meu filho, vou te dar um conselho. Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o pai uma espécie de Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se; põe a mão no ombro do filho: - O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? - E baixa a voz: - É não tocar na pequena, não tomar certas liberdades, percebeu? Assombro de Salviano: "Mas, como? Liberdades, como?". E o pai: - Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e a direito, o que é que acontece? Você enjoa, meu filho. Batata: enjoa! E quando chega o casamento, nem a mulher oferece novidades para o homem, nem o homem para a mulher. A lua-de-mel vai-se por água abaixo. Compreende? Abismado de tanta sabedoria, admitiu: - Compreendi.

Nelson Rodrigues Problema matrimonial
Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou: - Está muito bem assim! A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce. Mas a mãe chorou, replicou: "Não, meu filho. seu tio tem razão. Você precisa casar, sim". Atónito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, de pergunta: - Casar pra quê? Por quê? E vocês? - Interpela as irmãs: - Por que vocês não se casaram? A resposta foi vaga, insatisfatória: - Mulher é outra coisa. Diferente.

Nelson Rodrigues Sofrimento
A princípio, Filadelfo conjecturou: "É hoje só". No dia seguinte, porém, houve a mesma coisa. Ele coçava a cabeça: "Aqui há dente de coelho!". Coincidiu que, por essa ocasião, os seus sogros aparecessem para jantar. Dr. Magarão, enquanto a mulher conversava com a filha, levou o genro para a janela: "Como é? Como vai o negócio aqui?" Filadelfo exclama: - Estou besta! Estou com a minha cara no chão! O velho empina a barriga de ópera-bufa: - Por quê? E o genro: - Tivemos aquela conversa. Pois bem. Jupira mudou. Está uma seda; e me trata que só o senhor vendo! Ao lado, mascando o charuto apagado, o velho balança a cabeça: - Óptimo! - O negócio está tão bom, tão gostoso, que eu já começo a desconfiar! O sogro põe-lhe as duas mãos nos ombros: - Queres um conselho? De mãe pra filho? Não desconfia de nada, rapaz. Te custa ser cego? Olha! O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido não deve saber nunca!

Nelson Rodrigues Teoria
Entram num pequeno bar, ocupam uma mesa discreta. Enquanto o garçon vai e vem, com uma cerveja e dois copos, dr. Magarão comenta: - Você sabe que eu sou casado, claro. Muito bem. E, além da minha experiência, vejo a dos outros. Descobri que toda mulher honesta é assim mesmo. Espanto de Filadelfo: - Assim como? O gordo continua: - Como minha filha. Sem tirar, nem pôr. Você, meu caro, desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste azeda e neurasténica. Filadelfo recua na cadeira: - Tem dó! Essa não! - E repetia, de olhos esbugalhados, lambendo a espuma da cerveja: - Essa, não! Mas o sogro insistiu. Pergunta: - Sabe qual foi a esposa mais amável que eu já vi na minha vida? Sabe? Foi uma que traia o marido com a metade do Rio de Janeiro, inclusive comigo! Espalmou a mão no próprio peito, numa feroz satisfação retrospectiva: Também comigo! E tratava o marido assim, na palma da mão! Uma hora depois, saiam os dois do pequeno bar. Dr. Magarão, com sua barriga de ópera-bufa e bêbado, trovejava: - Você deve se dar por muito satisfeito! Deve lamber os dedos! Dar graças a Deus! O genro, com as pernas bambas, o olho injectado, resmunga: - Vou tratar disso!

Um dia sem assaltos
Imaginemos que um milionário paulista, não tendo mais o que fazer, resolva contratar um gramático. Seria tempo perdido. Podia anunciar nos classificados: — "PRECISA-SE de um gramático etc. etc.". Não encontraria um. No Brasil de hoje, é mais fácil achar uma girafa do que um gramático. E, no entanto, vejam vocês: — houve um tempo em que o brasileiro gostava de escrever certo e de falar certo. Mas os usos, o gosto, os valores mudam, obviamente, de geração para geração. Lembro-me de um jogador de futebol. Um locutor volante, antes do jogo, atropelou um craque. E este disse: — "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor, esfuziante, resolveu prolongar a entrevista. Perguntou: — "Vocês vão jogar o quatro-três-três ou o quatro-dois-quatro?". Há uma pausa aterrada. Bem se via que o jogador estava preparado para uma pergunta e não para duas. Pensa, pensa e, súbito, baixa-lhe a inspiração. Responde: — "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor exulta: — "Acabaram de ouvir" etc. etc. Eis o que eu queria dizer: — nunca se falou tão errado, nem se escreveu tão errado. Mas, coisa curiosa. Talvez por isso mesmo a língua brasileira ganhou em plasticidade, sim, lucramos em música verbal. E se, por acaso, ainda existir algum neto retardatário e obsoleto dos antigos gramáticos, será ele o primeiro a fingir-se analfabeto. Há, porém, uma figura que fala corretissimamente, sem os nossos freqüentes deslizes gramaticais: — o ladrão de banco. Assalta com a metralhadora e com a gramática. Nunca me esqueço do filme Dillinger, que passou, no Rio, há uns dez anos. Era a biografia do famoso bandido. A estréia foi, se não me engano, numa segunda-feira, e no Rex. Entre parênteses, o Rex é um cinema que já nasceu velho. No dia de sua inauguração, parecia contemporâneo da primeira batalha do Marne e do fuzilamento de Mata-Hari. E outra singularidade: — desde o primeiro dia de vida, o Rex teve pulgas voracíssimas. Vi o anúncio e decidi: — "Esse, eu não perco". Filme de gangster é, naturalmente, uma preferência comprometedora. E, portanto, escolhi a última sessão, que seria a mais vazia. Às dez para as dez, estava na bilheteria. Imaginei que só eu, entre 5 milhões de cariocas, estaria interessado em Dillinger. Mas chego lá e caio das nuvens. Cinema entupido. E não se pense que eram marginais, desclassificados de ambos os sexos, que estavam lá. Vi grã-finos, intelectuais, ministros, banqueiros e, até, um pastor protestante. Por que o brasileiro tem essa fascinação pelo filme de gangster? Era a pergunta que eu me fazia, sem lhe achar resposta. E observei que todos,inclusive eu, tínhamos vergonha de estar ali. Mas vimos o filme. Como se sabe, Dillinger foi um dos mais espantosos ladrões de banco de sua época. Mas uma das passagens que gelaram a platéia de maravilhado horror foi a seguinte: — o gangster estava na casa de dois velhinhos. Marido e mulher teriam seus oitenta anos. Daí para mais. E, súbito, o bandido vê o velhinho cochichando no telefone. Desconfiou. A simples suspeita bastou. Assassinou o casal, a machadadas. Houve, no cinema, um silêncio de rebentar os tímpanos. Os assaltos aos bancos deliciavam a platéia. Quando acabou, ouvi uma grã-fina sussurrar para outra grã-fina: — "Que homem! Que homem!". A outra respondeu, baixinho também: — "Com esse, eu me casava!". A sensação que tive foi a de que éramos uma platéia de ladrões de banco e assassinos de velhinhos. O que eu queria dizer é que tenho pensado muito no filme do bandido. Pela primeira vez no Brasil assalta-se banco e repito: — assaltar bancos tornou-se uma rotina da cidade. O leitor de jornal sente-se frustradíssimo quando passa um dia sem assalto. Ainda ontem ou anteontem, dizia um meu amigo, quase irritado: — "Hoje ninguém assaltou". E o pior é que ninguém se espanta. Ou, na melhor das hipóteses, há um espanto sem terror. O fato adquire uma naturalidade cínica. Todos parecem raciocinar nos seguintes termos: — se podemos depositar nos bancos, abrir contas, fazer cheques, também podemos assaltá-los. No cinema e, pois, na ficção, o mesmo assalto tem uma outra e apaixonante dimensão. O incidente passa sem nenhum apelo emocional. E reparem como não há nem um relativo susto. Senhoras gordas continuam levando suas contas da luz e do telefone; os depositantes comparecem; os caixas pagam e recebem; o gerente boceja na sua mesa ou discute futebol. Ninguém pensa que, a qualquer momento, pode levar uma rajada de metralhadora. Se me perguntassem por que não há horror, eu diria: — o horror exige retórica. Nos bons tempos, havia o conselheiro Rui Barbosa. E nada acontecia, no Brasil e no mundo, que não tivesse o seu orador. Houve o desastre da "barca Sétima". Morreram, digamos, cem crianças. Não tenho nenhuma certeza numérica. Mas, digamos: — cem. O conselheiro Rui Barbosa ocupou a tribuna. E o que fazia chorar, mais do que as mortes, o luto das famílias, os enterros, era a retórica do conselheiro. Hoje, não há um brasileiro, vivo ou morto, que não use, com efusão e abundância, o erro de português. Nos bons tempos, todo mundo falava certo e escrevia certo. Era a eloqüência com gramática. Rui foi, do berço ao túmulo, o gramático irremediável. Poderei dizer, sem exagero, que a sua glória é, sobretudo, gramatical. Nada mais correto do que sua frase. Pois bem. Repito: — cada acontecimento íntimo ou coletivo, doméstico ou político, tinha o seu Rui. Fosse batizado, noivado, enterro, aniversário, a retórica era fatal. Hoje, falta um Rui, ainda que modesto, ainda que menor, para estimular o nosso espanto, o nosso horror, a nossa indignação.

O beijo no asfalto

Estilo Tragédia contemporânea contrastando poesia e vulgaridade. Conserva-se fiel ao expressionismo freudiano e realismo, o autor vem de encontro a preconceitos e inseguranças bem como à falsidade, ao juízo fundado na aparência e a condições unânimes. Enredo Arandir testemunha um atropelamento e ao socorrer a vítima, dálhe um beijo na boca a pedido do agonizante. É imediatamente acusado de homossexualismo pela imprensa e pela polícia. Ridicularizado perante a opinião pública os amigos e desamparado pela esposa (Selminha) vem a refugiar-se em uma pensão É visitado pelo sogro (Aprígio) que declara-lhe seu ódio, revelando-se apaixonado por ele e com ciúmes pelo fato de Arandir ter-se casado com Selminha e por vir a beijar outro . Com dos tiros Arandir é morto por Aprígio. Fragmento "(...) Em toda a minha vida, a única coisa que salva é o beijo no asfalto (...) É lindo! é lindo, eles não entendem. Lindo beijar quem está morrendo (grita). Eu não me arrependo! Eu não me arrependo." Cale-se. Preste Atenção "O morto é o grande personagem invisível, Arandir ao beijar o agonizante, beijou a morte na boca".

Lua de Mel

Seguindo a sugestão do sogro, de não quis investigar as causas da mudança da esposa. Tratou de extrair o máximo possível da situação, tanto mais que passara a viver num regime de lua-de-mel. Dias depois, porém, recebe uma minuciosíssima carta anónima, com dados, nomes, endereços, duma imensa verosimilhança. O missivista desconhecido começava assim: "Tua mulher e o Cunha...". O Cunha era, talvez, o seu maior amigo e jantava três vezes por semana ou, no mínimo, duas, com o casal. A carta anónima dava até o número do edifício e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes se encontravam. Filadelfo lê aquilo, relê e rasga, em mil pedacinhos, o papel indecoroso. Pensa no Cunha, que é solteiro, simpático, quase bonito e tem bons dentes. Uma conclusão se impõe: sua felicidade conjugal, na última fase, é feita á base do Cunha. Filadelfo continuou sua vida, sem se dar por achado, tanto mais que Jupira revivia, agora, os momentos áureos da lua-de-mel. Certa vez jantavam os três, quando cai o guardanapo de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente, debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por cima dos outros. Passa-se o tempo e Filadelfo recebe a noticia: o Cunha ficara noivo! Vai para casa, preocupadíssimo. E, lá, encontra a mulher de bruços, na cama, aos soluços. Num desespero obtuso, ela diz e repete: - Eu quero morrer! Eu quero morrer! Filadelfo olhou só: não fez nenhum comentário. Vai numa gaveta, apanha o revólver e sai á procura do outro. Quando o encontra, cria o dilema: - Ou você desmancha esse noivado ou dou-lhe um tiro na boca, seu cachorro! No dia seguinte, o apavorado Cunha escreve uma carta ao futuro sogro, dando o dito por não dito. Á noite, comparecia, escabreado, para jantar com o casal. E, então, á mesa, Filadelfo vira-se para o amigo e decide: - Você, agora, vem jantar aqui todas as noites! Quando o Cunha saiu, passada a meia-noite, Jupira atira-se nos braços do marido: - Você é um amor!

Misericórdia

Foi uma conversa que se alongou por toda uma noite. No seu desespero inicial, ele berrava: "Cínica! Cínica!". E soluçava: "Nunca teve um beijo meu, que sou seu noivo, e vai ter o filho do outro!". O pai, porém, conseguiu, após poucos, aplacá-lo. Sustentou a tese de que todos nós, afinal de contas, somos falíveis e, particularmente, as mulheres: "Elas são de vidro", afirmava. Alta madrugada, o pobre-diabo pergunta: "E eu? Devo fazer o quê?". Justiça se lhe faça - o velho foi magnífico: "Perdoar. Perdoa, meu filho, perdoa!". Quis protestar: "Ela merece um tiro!". Mais que depressa, seu Notário atalha: — Ela, não, nunca! Ele, sim! Ele merece! — Quem? Baixa a voz: "O pai da criança! Esse filho não caiu do céu, de pára-quedas! Há um culpado". Pausa. os dois se entreolham. Seu Notário segura o filho pelos dois braços: — Antes de ti, Edila teve um namorado. Deve ter sido ele. Se fosse comigo, eu matava o cara que... Ergue-se, transfigurado, quase eufórico: "Tem razão, meu pai! O senhor sempre tem razão!".
Mudança
Um mês depois, ele chega em casa, do trabalho, e acontece uma coisa sem precedentes: a mulher, pintada, perfumada, se atira nos seus braços. Foi uma surpresa tão violenta que Filadelfo perde o equilíbrio e quase cai. Em seguida, ela aperta entre as mãos o seu rosto e o beija na boca, num arrebatamento de namorada, de noiva ou de esposa em lua-de-mel. Ele apanha o jornal, que deixara cair. Maravilhado, pergunta: - Mas que é isso? Que foi que houve? Jupira responde com outra pergunta: - Não gostou? Ele senta confuso. - Gostar, gostei, mas... - Ri: - Você não é assim, você não me beija nunca. Jupira tem um gesto de uma petulância que o delícia: vem sentar-se no seu colo, encosta o rosto no dele. Filadelfo é acariciado. Acaba perguntando: - Explica este mistério. Aconteceu alguma coisa. Aconteceu? Ela suspira: - Mudei ora!

Novo parto
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada ás pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: "Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário: - Meus dentes estão doendo! E, de fato, o grande termómetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura. A parteira duvidou, mas, dai a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha. Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão: - Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!

O amor imortal
Há três ou quatro semanas que o Menezes falava num novo amor imortal. Contava, para os companheiros embasbacados: - "Mulher de um pediatra, mas olha: - um colosso! ". Queriam saber: - "Topa ou não topa?". Esfregava as mãos, radiante: - Estou dando em cima, salivando. Está indo. Todas as manhãs, quando o Menezes pisava no escritório, os companheiros o recebiam com a pergunta: - "E a cara?". Tirando o paletó, feliz da vida, respondia: - Está quase. Ontem, falamos no telefone quatro horas! Os colegas pasmavam para esse desperdício: - "Isso não é mais cantada, é ...E o vento levou". Meireles sustentava o princípio que nem a Ava Gardner, nem a Cleópatra justificam quatro horas de telefone. Menezes protestava: - Essa vale! Vale, sim senhor! Perfeitamente, vale! E, além disso, nunca fez isso! É de uma fidelidade mórbida! Compreendeu? Doentia! E ele, que tinha filhos naturais em vários bairros do Rio de Janeiro, abandonara todos os outros casos e dava plena e total exclusividade à esposa do pediatra. Abria o coração no escritório: - Sempre tive a tara da mulher séria! Só acho graça em mulher séria! Finalmente, após quarenta e cinco dias de telefonemas desvairados, eis que a moça capitula. Toda a firma exulta. E o Menezes, passando o lenço no suor da testa, admitia: - "Custou, puxa vida! Nunca uma mulher me resistiu tanto!". E, súbito, o Menezes bate na testa: - É mesmo! Está faltando um detalhe! O apartamento! Agarra o Meireles pelo braço: - "Tu emprestas o teu?". O outro tem um repelão pânico: - Você é besta, rapaz! Minha mãe mora lá! Sossega o periquito! Mas o Menezes era teimoso. Argumenta: - Escuta, escuta! Deixa eu falar. A moça é séria. Séria pra burro. Nunca vi tanta virtude na minha vida. E eu não posso levar para uma baiúca. Tem que ser,olha: - apartamento residencial e familiar. É um favor de mãe pra filho caçula. O outro reagia: - "E minha mãe? Mora lá, rapaz!". Durante umas duas horas, pediu por tudo: - Só essa vez. Faz o seguinte: - manda a tua mãe dar uma volta. Eu passo lá duas horas no máximo! Tanto insistiu que, finalmente, o amigo bufa: - Vá lá! Mas escuta: - pela primeira e última vez! Aperta a mão do companheiro: - És uma mãe!

Frases
- O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade. - Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bemsucedido não interessa a ninguém. - Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de "ilustre", de "insigne", de "formidável", qualquer borra-botas. - A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem. - O brasileiro não está preparado para ser "o maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade. - Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar. - Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível. - O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas. - Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria. - Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza. - O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.

- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. - Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — "Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!". Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão! - Em nosso século, o "grande homem" pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta. - O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda. - Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma. - Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca. - Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.

O beijo
Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse sobre as possibilidades ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu, com muito empenho, sobre um ponto que considerava importantíssimo: - Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca! A garota, espantada, protestou - Ora, mamãe! E a velha: - Ora o quê? É isso mesmo! Sem beijo não há nada, está ,.tudo muito bem. OK. E com beijo pode acontecer o diabo. Você é muito menina e talvez não perceba certas coisas. Mas pode ficar certa: tudo que acontece de ruim, entre um homem e uma mulher, começa num beijo!

O canalha

Quando soube que a noiva tinha viajado de lotação com o Dudu, sentada no mesmo banco, pôs as mãos na cabeça: - Com o Dudu? E ela: - Com o Dudu, sim. As duas mãos enfiadas nos bolsos, andando de um lado para outro; ele estaca, finalmente, diante da pequena: - Olha, Cleonice, vou te pedir um favor de mãe pra filho. Pode ser? - Claro. Puxa um cigarro: - É o seguinte: de hoje em diante, ouviu?, de hoje em diante, tu vais negar o cumprimento ao Dudu. Admirou-se: - Por que, meu anjo? Ele explicou - Porque o Dudu é um cínico, um crápula, um canalha abjeto. Um sujeito que não respeita nem poste e que é capaz até de dar em cima de uma cunhada. O simples cumprimento de Dudu basta para contaminar uma mulher. Percebeste? - Percebi. Ainda excitado, ele enxuga com o lenço o suor da testa: - Pois é. Passou. Mas a verdade é que Cleonice ficou impressionadíssima. Dava-se com o Dudu, sem intimidade, mas cordialmente. Dançara com ele umas duas ou três vezes. Mas como o Dudu fosse fisicamente simpático e educadíssimo, Cleonice guardara dos seus contatos acidentais uma boa impressão. Caiu das nuvens ao saber que de era capaz de "dar em cima de uma cunhada" Teria, porém, esquecido. Voltando á carga, sentado com a noiva num banco de jardim público, ele começa: - Meu anjo, tu sabes que eu não tenho ciúmes. Não sabes? - Sei. Pigarreia: - Só tenho ciúmes de uma pessoa o Dudu. E nunca te esqueças: é um canalha, talvez o único canalha vivo do Brasil. Todo mundo tem defeitos e qualidades. Mas o Dudu só tem defeitos. Inexperiente da vida e dos homens, ela fazia espanto: - Mas isso é verdade? Batata? Exagerou: Batatíssima! Quero ser mico de circo se estou mentindo! - E repetia, num furor terrível e inofensivo: - Indigno de entrar numa casa de família!

Obsessão
Então, sem querer, sem sentir, Lima foi fazendo do Dudu o grande e absorvente personagem de suas conversas. Argumentava: - Você é muito boba, muito inocente, nunca teve outro namorado senão eu. Queres um exemplo? sou teu noivo, vou casar contigo. Muito bem. O que é que houve entre nós dois? Uns beijinhos, só. É ou não é? Impressionada, admitiu: - Lógico! Lima continua: - Figuremos a seguinte hipótese: que, em vez de mim, fosse teu namorado o Dudu Tu pensas que de ia te respeitar como eu te respeito? Duvido! Duvido! Dudu não tem sentimento de família, de nada! É uma besta-fera, uma hiena, um chacal! Crispando-se, Cleonice suspira: "Parece impossível que existam homens assim". Lima prossegue: "Vou te dizer uma coisa mais: o Dudu olha para uma mulher como se a despisse mentalmente!"

A festa

Dias depois, Cleonice está conversando com umas coleguinhas quando alguém fala do Dudu. Então, ela olha para os lados e baixa a voz: "Ouvi dizer que o Dudu deu em cima de uma cunhada". Uma das presentes, que conhecia o rapaz, a família do rapaz, protesta: "Mas o Dudu nem tem cunhada!''. Mais tarde a espantadíssima Cleonice interpela o Lima. Ele não se dá por achado: - Eu não disse que o Dudu deu em cima de uma cunhada. Eu disse que "daria" caso tivesse. Você entendeu mal. Mais alguns dias e os dois, vão a uma festa, em casa de família. Entram e têm, imediatamente, o choque: Dudu estava lá! Junto de uma janela, com o seu bonito perfil, fumando de piteira, pálido e fatal, atraia todas as atenções. Lima aperta o braço da noiva. Diz, entredentes: "Vamos embora". Ela, espantada, pergunta: "Por quê?". O noivo a arrasta: - O Dudu está ai. E não convém, ouviu? Não convém! Imagina se ele tem o atrevimento de te tirar para dançar Deus me livre!

O medo

Na volta da festa, Cleonice faz, pela primeira vez, um comentário irritado: - Fala menos nesse Dudu! Sabe que eu só penso nele? Te digo mais: tenho medo! Lima estaca: "Medo de que e por que, ora essa?". Ela parece confusa: - Essas coisas impressionam uma mulher. - E repete o apelo: - Não fala mais nesse cara' É um favor que te peço! Ele obstinou-se: "Falo, sim, como não? Você precisa olhar o Dudu como um verme!". Cleonice suspirou. - Você sabe o que faz!



Ódio

Corria o tempo. Todos os dias, o Lima aparecia com uma novidade: "Vi aquela besta com outra!". E se havia uma coisa que doesse nele, como uma ofensa pessoal, era a escandalosa sorte do "canalha" com as outras mulheres. Nos seus desabafos com a noiva, Lima exagerava: "Cheio de pequenas! Tem namoradas em todos os bairros!". Um dia, explodiu: - Vocês, mulheres, parece que gostam dos canalhas! Por exemplo: o meu caso. Sem falsa modéstia, sou um sujeito decente, respeitador e outros bichos. Pois bem. Não arranjava pequena nenhuma. Até hoje não compreendo como você gostou de mim, fez fé comigo e me preferiu ao Dudu. - Pausa e baixa a voz, na confissão envergonhada: - Porque o Dudu me tirou todas as outras namoradas, uma por uma. Era essa, com efeito, a origem do seu ódio por Dudu, do despeito que o envenenava.


As bodas

Chega o dia do casamento. Poucos minutos antes da cerimônia civil, Lima, transfigurado, ainda diz ao ouvido da noiva: "O Dudu roubou todas as minhas pequenas, menos você!". Pois bem. Casam-se no civil e, mais tarde, no religioso. Quase à meia-noite, estão os dois sozinhos, face a face, no apartamento que seria a nova residência. Ele, nervosíssimo, baixa a voz e pede: "Um beijo!". Ela, porém, foge com o rosto: "Não!". Lima não entende. Cleonice continua: - Falaste tanto e tão mal do Dudu que eu me apaixonei por ele. Eu não trairei o homem que eu amo nem com o meu marido. Lima compreendeu que a perdera. Sem uma palavra deixa o quarto nupcial. De pijama e chinelos veio para a porta da rua. Senta-se no meio-fio e põe-se a chorar.

O decote

Era uma mãe enérgica, viril, à antiga. Diabética, asmática, com sessenta anos nas costas, apanhou um táxi na Tijuca e deu o endereço do filho, em Copacabana. Chegou de surpresa. A nora, que não gostava da sogra perspicaz e autoritária, torceu o nariz. Já o filho, que a respeitava acima de tudo e de todos, precipitou-se, de braços abertos, trêmulo de comoção: — Oh, que milagre! Deu-lhe o braço. Há dois anos, com efeito, que D. Margarida não entrava naquela casa. Indispôs-se com a nora, cuja beleza a irritava, e cortou o mal pela raiz: "Não ponho mais os pés aqui, nunca mais". Clara deu graças a Deus. Aquela sogra, sem papas na língua, a exasperava. E Aderbal, que era um bom filho e melhor marido, limitou-se a uma exclamação vaga e pusilânime: "Mulher é um caso sério!". Foi só. Eis que, dois anos depois, abandonando sua rancorosa intransigência, D. Margarida punha os pés naquela casa. Foi um duplo sacrifício, fisico e moral, que ela se impôs, heroicamente. Trancou-se com o filho no gabinete. Perguntou: — Sabe por que eu vim aqui? E de, impressionado: — Por quê? D. Margarida respirou fundo: — Vim lhe perguntar o seguinte: você é cego ou perdeu a vergonha? Não esperava por esse ataque frontal. Ergueu-se, desconcertado: "Mas como?". Apesar dos seus achaques, que faziam de cada movimento uma dor, D. Margarida pôs-se de pé também. Prosseguiu, implacável: — sua mulher anda fazendo os piores papéis. Ou você ignora? — E, já com os olhos turvos, uma vontade doida de chorar, interpelava-o: — Você é ou não é homem? Foi sóbrio: — Sou pai.


O pai

Há quinze anos atrás, os dois se casaram, no civil e religioso, e, como todo mundo, numa paixão recíproca e tremenda. A lua-de-mel durou o quê? Uns quinze, dezesseis dias. Mas, no décimo sétimo dia, encontrou-se Aderbal com uns amigos e, no bar, tomando uísque, de disse, por outras palavras, o seguinte: "O homem é polígamo por natureza. Uma mulher só não basta!". Quando chegou em casa, tarde, semibêbado, Clara o interpelou: "Que papelão, sim senhor!". Ele podia ter posto panos quentes, mas o álcool o enfurecia. Respondeu mal; e ela, numa desilusão ingênua e patética, o acusava — "Imagine! Fazer isso em plena lua-de-mel!". A réplica foi grosseira: — Que lua-de-mel? A nossa já acabou! Durante três dias e três noites, Clara não fez outra coisa senão chorar. Argumentava: "se ele fizesse isso mais tarde, vá lá. Mas agora...". A verdade é que jamais foi a mesma. Um mês depois, acusava os primeiros sintomas de gravidez, que o exame médico confirmou. E, então, aconteceu o seguinte: enquanto ela, no seu ressentimento, esfriava, Aderbal se prostrava a seus pés em adoração. Sentimental da cabeça aos pés, não podia ver uma senhora grávida que não se condoesse, que não tivesse uma vontade absurda de protegê-la. Lírico e literário, costumava dizer: "A mulher grávida merece tudo!". No caso de Clara, ainda mais, porque era o seu amor. No fim do período, nasceu uma menina. E foi até interessante: enquanto Clara gemia nos trabalhos de parto, Aderbal, no corredor, experimentava a maior dor de dente de sua vida. Mas ao nascer a criança a nevralgia desapareceu, como por milagre. E, desde o primeiro momento, ele foi, na vida, acima de tudo, o pai. Esquecia-se da mulher ou negligenciava seus deveres de esposo. Mas, jamais, em momento algum, deixou de adorar a pequena Mirna. Incidia em todas as inevitáveis infantilidades de pai. Perguntava: "Não é a minha cara?". Os parentes, os amigos, comentavam: — Aderbal está bobo com a filha!


A esposa

Quando Mirna fez oito anos, ele recebeu uma carta anônima em termos jocosos: "Abre o olho, rapaz!". Pela primeira vez, caiu em si. Começou a observar a mulher. Mãe displicente, vivia em tudo que era festa, exibindo seus vestidos, seus decotes, seus belos ombros nus. Um dia chamou a mulher: "Você precisa selecionar mais suas amizades...". Clara, limando as unhas, respondeu: "Vê se não dá palpite, sim? Sou dona do meu nariz!". Desconcertado, quis insistir. Ela, porém, gritou: "Você nunca me ligou! Nunca me deu a menor pelota!". Aderbal teve que dar a mão á palmatória. — Bem. Eu não me meto mais. Mas quero lhe dizer uma coisa: nunca se esqueça que você tem de prestar contas á sua filha. Foi malcriada: — Ora não amola! Foi esta a última vez. Nunca mais discutiram. Aderbal passou a ser apenas uma testemunha silenciosa e voluntariamente cega da vida frívola da mulher. Tinha uma idéia fixa, que era a filha. Uma vez na vida, outra na morte, dizia á esposa: "Nunca se esqueça que você é mãe". E era só. Agora que Mirna completava quinze anos, D. Margarida invadia-lhe a casa. Discutiram os dois. A velha partia do seguinte principio: Clara era infiel e, portanto, o casal devia separar-se e, depois, desquitar-se. Desesperado, Aderbal teve uma espécie de uivo: "E minha filha?". D. Margarida explodiu: "Ora pílulas!". Ele foi categórico: — Olhe, minha mãe: eu não existo. Compreendeu? Quem existe é a minha filha. Não darei esse desgosto á minha filha, nunca! A velha usou todos os seus argumentos, mas em vão. Aderbal dava uma resposta única e obtusa: "Pode ter amante, pode ter o diabo, mas é mãe de minha filha. E se minha filha gosta dessa mulher ela é sagrada para mim, pronto, acabou-se!". Por fim, já sem paciência, D. Margarida saiu, apoiada na sua bengala de doente. E, da porta, gritou: — Você precisa ter mais vergonha nessa cara!


Pecadora

Uns quarenta minutos depois, Aderbal foi falar com Mirna: "Vem cá, minha filha: você gosta muito de sua mãezinha?". Ela pareceu maravilhada com a pergunta: "Você duvida, papai?". Pigarreou, disfarçando: "Brincadeira minha". Sentada no colo paterno, a pequena, que era parecida com Clara, suspirou. "Gosto muito de mamãe e gosto muito de você". Atormentado, ele deixou passar uns dois dias. No terceiro dia, discutiu com a mulher. E definiu a situação: — Eu sei que você não gosta de mim. Mas respeite, ao menos, sua filha. A discussão podia ter tido um tom digno. Mas Clara estava tão saturada daquele homem que não resistiu. A voz do marido, o gesto, a roupa, as mãos, a pele — tudo a desgostava. Com dezesseis anos de casada, percebia que num casal, pior do que o ódio, é a falta de amor Perdeu a cabeça, disse o que devia e o que não devia. Aderbal quis conservar a serenidade: "Minha filha não pode saber de nada". Então, Clara teve um acinte desnecessário, uma crueldade inútil; interpelava-o: "Você fala de sua filha. E você? Afinal, o marido é você!". Muito pálido, Aderbal emudeceu. Ela continuou, agravando a humilhação do marido: "Ou você vai dizer que não sabe?". Na sua cólera contida, quis sair do quarto. Mas já Clara se colocou na sua frente, resoluta, barrando-lhe o caminho Voltara, há pouco, de uma festa. Estava de vestido de baile, num decote muito ousado, os ombros morenos e nus, perfumadíssima. E, então, com as duas mãos nos quadris, fez a desfeita: — Não vá saindo, não. — E perguntava: — Você não me provocou? Agora agüente! E ele, em voz baixa: — Fale baixo. Sua filha pode ouvir! Sem querer, Clara obedeceu. Falou baixo, mas, pela primeira vez, disse tudo. Assombrado, diante dessa maldade que irrompia, sem pretexto, gratuita e terrível — ele se limitava: "Por que você diz isso? Por quê?". Queria interrompê-la: "Cale-se! Cale-se! Eu não lhe perguntei nada! Eu não quero saber!". Mas a própria Clara não se continha mais: — Você conhece fulano? Seu amigo, deve favores a você, o diabo. Pois ele foi o primeiro! — Fulano? Mentira!... E ela: — Quero que Deus me cegue se minto! Sabe quem foi o segundo? Sicrano! Queres outro? Beltrano. Ao todo, dezessete! Compreendeu? Dezessete! Então, desfigurado, ele disse: — Só não te mato agora mesmo porque minha filha gosta de ti! Disse isso e saiu do quarto.


A filha

Dez minutos depois, de bruços no divã, ele chorava, no seu ódio impotente. E, súbito, sente que uma mão pousa na sua cabeça. Vira-se, rápido. Era a filha que, nas chinelinhas de arminho, no quimono rosa e bordado, descera de mansinho. Ajoelhou-se a seu lado. Desconcertado, passou as costas das mãos, limpando as lágrimas. Então, meiga como nunca, solidária como nunca Mirna disse: "Eu ouvi tudo. Sei de tudo". Lenta e grave, continuou: — Eu não gosto de minha mãe. Deixei de gostar de minha mãe. Ele pareceu meditar, como se procurasse o sentido misterioso dessas palavras. Levantou-se, então. Foi a um móvel e apanhou o revólver na gaveta. Subiu, sem pressa. Diante do espelho, Clara espremia espinhas. Ao ver o marido, pôs-se a rir. Boa, normal, afável com os demais, só era cruel com aquele homem que deixara de amar. Seu riso esganiçado e terrível foi outra maldade desnecessária. Então, Aderbal aproximou-se. Atirou duas vezes no meio do decote.

O defunto

Entrou no quarto, deitou-se na cama, vestido, de paletó, colarinho, gravata, sapatos. Uniu bem os pés; entrelaçou as mãos, na altura do peito; e assim ficou. Pouco depois, a mulher surgiu na porta. Durante alguns momentos esteve imóvel e muda, numa contemplação maravilhada. Acabou murmurando: — O jantar está na mesa. Ele, sem se mexer, respondeu: — Pela ultima vez: morri. Estou morto. A outra não insistiu. Deixou o quarto, foi dizer à empregada que tirasse a mesa e que não faziam mais as refeições em casa. Em seguida, voltou para o quarto e lá ficou. Apanhou um rosário, sentou-se perto da cama: aceitava a morte do marido como tal; e foi como viúva que rezou. Depois do que ela própria fazia nos lotações, nada mais a espantava. Passou a noite fazendo quarto. No dia seguinte, a mesma cena. E só saiu, à tarde, para sua escapada delirante, de lotação. Regressou horas depois. Retomou o rosário, sentou-se e continuou o velório do marido vivo.

O desgraçado

Não mentira ao sogro. Sua vida conjugal era, de fato, de uma melancolia tremenda. Descontado o período da lua-de-mel, que ele estimava em oito dias, nunca mais fora bem tratado. Sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente de visitas. E, certa vez, durante um jantar com outras pessoas, ela o fulmina, com a seguinte observação, em voz altíssima. - Vê se pára de mastigar a dentadura, sim? Houve um constrangimento universal. O pobre do marido, assim desfeiteado, só faltou atirar-se pela janela mais próxima. Após três anos de experiência matrimonial, eleja não esperava mais nada da mulher, senão outros desacatos. E só não compreendia que Jupira, amabilíssima com todo mundo, fizesse uma excepção para ele, que era, justamente, o marido. Depois de Ter deixado o sogro, voltou para casa desesperado. Chega, abre a porta, sobe a escada e quando entra no quarto recebe a intimação: - Não acende a luz! Obedeceu. Tirou a roupa no escuro e, depois, andou caçando o pijama, como um cego. E quando, afinal, pôde deitar-se, fez uma reflexão melancólica: há dez meses ou mesmo um ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois. O máximo que ele, intimidado, se permitia, era roçar com os lábios a face da esposa. Se queria ser carinhoso demais, ela o desiludia: "Na boca não! Não quero!". Outra coisa que o amargurava era o seguinte: a negligência da mulher no lar. Não se enfeitava, não se perfumava. Deitado ao seu lado, ele pensava agora, lembrando-se da teoria do sogro: - "Será que a esposa honesta também precisa cheirar mal?"


O idílio

Foi um namoro tranqüilo, macio, sem impaciências, arrebatamentos. Sob a inspiração paterna, ele planificou o romance, de alto a baixo, sem descurar de nenhum detalhe. Antes de mais nada, houve o seguinte acordo: - Eu não toco em ti até o dia do casamento. Edila pergunta: - E nem me beija? Enfiou as duas mãos nos bolsos: - Nem te beijo. OK? Encarou-o, serena: - OK. Dir-se-ia que este assentimento o surpreendeu. Insinua: - Ou será que você vai sentir falta? - De quê? E Salviano, lambendo os beiços: - Digo falta de beijos e, enfim, de carinho. Sorriu, segura de si: - Não. Estou cem por cento com teu pai. Acho que teu pai está com a razão. Salviano não sabe o que dizer. Edila continua, com o seu jeito tranqüilo: - Sabe que essas coisas não me interessam muito? Eu acho que não sou como as outras. Sou diferente. Vejo minhas amigas dizerem que beijo é isso, aquilo e aquilo outro. Fico boba! E te digo mais: eu tenho, até, uma certa repugnância. Olha como eu estou arrepiada, olha, só de falar nesse assunto!


O inocente

Pôde, assim; desviar da noiva o seu ódio De manhã, passou pela casa de Edila. Com apavorante serenidade, em voz baixa, pediu o nome do culpado. Diante dele, a garota torcia e destorcia as mãos: "Não digo! Tudo, menos isso!". Ele sugeria, desesperado: "Foi o Pimenta?". O Pimenta era o antigo namorado de Edila. Ela dizia: "Não sei, não sei!". Salviano saiu dali certo. Procurou o outro, que conhecia de nome e de vista. Antes que o Pimenta pudesse esboçar um gesto, matou-o, com três tiros, à queima-roupa. E fez mais. Vendo um homem, um semelhante, agonizar aos seus pés, com um olhar de espanto intolerável, ele virou a arma contra si mesmo e estourou os miolos. Mais tarde, desembaraçado o corpo, foi instalada a câmara-ardente na casa paterna. Alta madrugada, havia, na sala, três ou quatro pessoas, além da noiva e de seu Notário. Em dado momento, o velho bate no ombro de Edila e a chama para o corredor. E, lá, ele, sem uma palavra, aperta entre as mãos o rosto da pequena e a beija na boca, com loucura, gana. Quando se desprendem, seu Notário, respirando forte, baixa a voz: — Foi melhor assim. Ninguém desconfia. Ótimo. Voltaram para a sala e continuaram o velório.


O ladrão

Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!" Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: "Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido de noiva!". Para quê? Ela se insultou: - Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim! Chamaram até a policia. O mistério era a verdade, alucinante: quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda - enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero ser enterrado assim".


O Pediatra

Saiu do telefone e anunciou para todo o escritório: - Topou! Topou! Foi envolvido, cercado por três ou quatro companheiros. O Meireles cutuca: - Batata? Menezes abre o colarinho: - "Batatíssima!". Outro insiste: - Vale? Justifica? Fez um escândalo: - Se vale? Se justifica? Ó rapaz! É a melhor mulher do Rio de Janeiro! Casada e te digo mais: séria pra chuchu! Alguém insinuou: - "Séria e trai o marido?". Então, o Menezes improvisou um comício em defesa da bem-amada: - Rapaz! Gosta de mim, entende? De mais a mais, escuta: o marido é uma fera! O marido é uma besta! Ao lado, o Meireles, impressionado, rosna: - Você dá sorte com mulher! Como você nunca vi! - E repetia, ralado de inveja: - Você tem uma estrela miserável!


O velho

Desde menino, Salviano se habituara a prestar contas quase diárias ao pai, de suas idéias, sentimentos e atos. O velho, que se chamava Notário, ouvia e dava os conselhos que cada caso comportava. Durante todo o namoro com Edila, seu Notário esteve, sempre, a par das reações do filho e da futura nora. Salviano, ao terminar as confidências, queria saber: "Que tal, papai?". Seu Notário apanhava um cigarro, acendia-o e dava seu parecer, com uma clarividência que intimidava o rapaz: — Já vi que essa menina tem o temperamento de uma esposa cem por cento. A esposa deve ser, mal comparando, e sob certos aspectos, um paralelepípedo. Essas mulheres que dão muita importância à matéria não devem casar. A esposa, quanto mais fria, mais acomodada, melhor! Salviano retransmitia, tanto quanto possível, para a namorada, as reflexões paternas. Edila suspirava: "Teu pai é uma simpatia!". De vez em quando, o rapaz queria esquecer as lições que recebia em casa. Com uma salivação intensa, o olhar rutilante, tentava enlaçar a pequena. Edila, porém, era irredutível; imobilizava-o: — Quieto! Ele recuava: — Tens razão!


O vestido de noiva

Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espectacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana esse modelo?" A reacção do rapaz foi surpreendente. Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura: - Que beleza, meu Deus! Que maravilha! Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: "Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimónia, brincou: - Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!


Os Noivos

Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou: - Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo. Ele obedeceu: - Pronto, papai. O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo: - Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria? Pra casar? Vermelho, respondeu: - Minhas intenções são boas. O outro esfrega as mãos. - Ótimo! Edila é uma moça direita, moça de família. E o que eu não quero para minha filha, não desejo para a filha dos outros. Agora, meu filho, vou te dar um conselho. Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o pai uma espécie de Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se; põe a mão no ombro do filho: - O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? - E baixa a voz: - É não tocar na pequena, não tomar certas liberdades, percebeu? Assombro de Salviano: "Mas, como? Liberdades, como?". E o pai: - Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e a direito, o que é que acontece? Você enjoa, meu filho. Batata: enjoa! E quando chega o casamento, nem a mulher oferece novidades para o homem, nem o homem para a mulher. A lua-de-mel vai-se por água abaixo. Compreende? Abismado de tanta sabedoria, admitiu: - Compreendi.


Problema matrimonial

Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou: - Está muito bem assim! A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce. Mas a mãe chorou, replicou: "Não, meu filho. seu tio tem razão. Você precisa casar, sim". Atónito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, de pergunta: - Casar pra quê? Por quê? E vocês? - Interpela as irmãs: - Por que vocês não se casaram? A resposta foi vaga, insatisfatória: - Mulher é outra coisa. Diferente.


Sofrimento

A princípio, Filadelfo conjecturou: "É hoje só". No dia seguinte, porém, houve a mesma coisa. Ele coçava a cabeça: "Aqui há dente de coelho!". Coincidiu que, por essa ocasião, os seus sogros aparecessem para jantar. Dr. Magarão, enquanto a mulher conversava com a filha, levou o genro para a janela: "Como é? Como vai o negócio aqui?" Filadelfo exclama: - Estou besta! Estou com a minha cara no chão! O velho empina a barriga de ópera-bufa: - Por quê? E o genro: - Tivemos aquela conversa. Pois bem. Jupira mudou. Está uma seda; e me trata que só o senhor vendo! Ao lado, mascando o charuto apagado, o velho balança a cabeça: - Óptimo! - O negócio está tão bom, tão gostoso, que eu já começo a desconfiar! O sogro põe-lhe as duas mãos nos ombros: - Queres um conselho? De mãe pra filho? Não desconfia de nada, rapaz. Te custa ser cego? Olha! O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido não deve saber nunca!


Teoria

Entram num pequeno bar, ocupam uma mesa discreta. Enquanto o garçon vai e vem, com uma cerveja e dois copos, dr. Magarão comenta: - Você sabe que eu sou casado, claro. Muito bem. E, além da minha experiência, vejo a dos outros. Descobri que toda mulher honesta é assim mesmo. Espanto de Filadelfo: - Assim como? O gordo continua: - Como minha filha. Sem tirar, nem pôr. Você, meu caro, desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste azeda e neurasténica. Filadelfo recua na cadeira: - Tem dó! Essa não! - E repetia, de olhos esbugalhados, lambendo a espuma da cerveja: - Essa, não! Mas o sogro insistiu. Pergunta: - Sabe qual foi a esposa mais amável que eu já vi na minha vida? Sabe? Foi uma que traia o marido com a metade do Rio de Janeiro, inclusive comigo! Espalmou a mão no próprio peito, numa feroz satisfação retrospectiva: Também comigo! E tratava o marido assim, na palma da mão! Uma hora depois, saiam os dois do pequeno bar. Dr. Magarão, com sua barriga de ópera-bufa e bêbado, trovejava: - Você deve se dar por muito satisfeito! Deve lamber os dedos! Dar graças a Deus! O genro, com as pernas bambas, o olho injectado, resmunga: - Vou tratar disso!


Um dia sem assaltos

Imaginemos que um milionário paulista, não tendo mais o que fazer, resolva contratar um gramático. Seria tempo perdido. Podia anunciar nos classificados: — "PRECISA-SE de um gramático etc. etc.". Não encontraria um. No Brasil de hoje, é mais fácil achar uma girafa do que um gramático. E, no entanto, vejam vocês: — houve um tempo em que o brasileiro gostava de escrever certo e de falar certo. Mas os usos, o gosto, os valores mudam, obviamente, de geração para geração. Lembro-me de um jogador de futebol. Um locutor volante, antes do jogo, atropelou um craque. E este disse: — "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor, esfuziante, resolveu prolongar a entrevista. Perguntou: — "Vocês vão jogar o quatro-três-três ou o quatro-dois-quatro?". Há uma pausa aterrada. Bem se via que o jogador estava preparado para uma pergunta e não para duas. Pensa, pensa e, súbito, baixa-lhe a inspiração. Responde: — "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor exulta: — "Acabaram de ouvir" etc. etc. Eis o que eu queria dizer: — nunca se falou tão errado, nem se escreveu tão errado. Mas, coisa curiosa. Talvez por isso mesmo a língua brasileira ganhou em plasticidade, sim, lucramos em música verbal. E se, por acaso, ainda existir algum neto retardatário e obsoleto dos antigos gramáticos, será ele o primeiro a fingir-se analfabeto. Há, porém, uma figura que fala corretissimamente, sem os nossos freqüentes deslizes gramaticais: — o ladrão de banco. Assalta com a metralhadora e com a gramática. Nunca me esqueço do filme Dillinger, que passou, no Rio, há uns dez anos. Era a biografia do famoso bandido. A estréia foi, se não me engano, numa segunda-feira, e no Rex. Entre parênteses, o Rex é um cinema que já nasceu velho. No dia de sua inauguração, parecia contemporâneo da primeira batalha do Marne e do fuzilamento de Mata-Hari. E outra singularidade: — desde o primeiro dia de vida, o Rex teve pulgas voracíssimas. Vi o anúncio e decidi: — "Esse, eu não perco". Filme de gangster é, naturalmente, uma preferência comprometedora. E, portanto, escolhi a última sessão, que seria a mais vazia. Às dez para as dez, estava na bilheteria. Imaginei que só eu, entre 5 milhões de cariocas, estaria interessado em Dillinger. Mas chego lá e caio das nuvens. Cinema entupido. E não se pense que eram marginais, desclassificados de ambos os sexos, que estavam lá. Vi grã-finos, intelectuais, ministros, banqueiros e, até, um pastor protestante. Por que o brasileiro tem essa fascinação pelo filme de gangster? Era a pergunta que eu me fazia, sem lhe achar resposta. E observei que todos,
inclusive eu, tínhamos vergonha de estar ali. Mas vimos o filme. Como se sabe, Dillinger foi um dos mais espantosos ladrões de banco de sua época. Mas uma das passagens que gelaram a platéia de maravilhado horror foi a seguinte: — o gangster estava na casa de dois velhinhos. Marido e mulher teriam seus oitenta anos. Daí para mais. E, súbito, o bandido vê o velhinho cochichando no telefone. Desconfiou. A simples suspeita bastou. Assassinou o casal, a machadadas. Houve, no cinema, um silêncio de rebentar os tímpanos. Os assaltos aos bancos deliciavam a platéia. Quando acabou, ouvi uma grã-fina sussurrar para outra grã-fina: — "Que homem! Que homem!". A outra respondeu, baixinho também: — "Com esse, eu me casava!". A sensação que tive foi a de que éramos uma platéia de ladrões de banco e assassinos de velhinhos. O que eu queria dizer é que tenho pensado muito no filme do bandido. Pela primeira vez no Brasil assalta-se banco e repito: — assaltar bancos tornou-se uma rotina da cidade. O leitor de jornal sente-se frustradíssimo quando passa um dia sem assalto. Ainda ontem ou anteontem, dizia um meu amigo, quase irritado: — "Hoje ninguém assaltou". E o pior é que ninguém se espanta. Ou, na melhor das hipóteses, há um espanto sem terror. O fato adquire uma naturalidade cínica. Todos parecem raciocinar nos seguintes termos: — se podemos depositar nos bancos, abrir contas, fazer cheques, também podemos assaltá-los. No cinema e, pois, na ficção, o mesmo assalto tem uma outra e apaixonante dimensão. O incidente passa sem nenhum apelo emocional. E reparem como não há nem um relativo susto. Senhoras gordas continuam levando suas contas da luz e do telefone; os depositantes comparecem; os caixas pagam e recebem; o gerente boceja na sua mesa ou discute futebol. Ninguém pensa que, a qualquer momento, pode levar uma rajada de metralhadora. Se me perguntassem por que não há horror, eu diria: — o horror exige retórica. Nos bons tempos, havia o conselheiro Rui Barbosa. E nada acontecia, no Brasil e no mundo, que não tivesse o seu orador. Houve o desastre da "barca Sétima". Morreram, digamos, cem crianças. Não tenho nenhuma certeza numérica. Mas, digamos: — cem. O conselheiro Rui Barbosa ocupou a tribuna. E o que fazia chorar, mais do que as mortes, o luto das famílias, os enterros, era a retórica do conselheiro. Hoje, não há um brasileiro, vivo ou morto, que não use, com efusão e abundância, o erro de português. Nos bons tempos, todo mundo falava certo e escrevia certo. Era a eloqüência com gramática. Rui foi, do berço ao túmulo, o gramático irremediável. Poderei dizer, sem exagero, que a sua glória é, sobretudo, gramatical. Nada mais correto do que sua frase. Pois bem. Repito: — cada acontecimento íntimo ou coletivo, doméstico ou político, tinha o seu Rui. Fosse batizado, noivado, enterro, aniversário, a retórica era fatal. Hoje, falta um Rui, ainda que modesto, ainda que menor, para estimular o nosso espanto, o nosso horror, a nossa indignação. E, além disso, a imprensa brasileira moderna vive da objetividade. Não há mais, como nas gerações românticas, uma única e escassa metáfora. Lembro-me, agora, de uma velha tragédia. Imaginem que dois estudantes foram mortos, ali, no largo de São Francisco. Um repórter maluco correu para a redação e criou uma metáfora que era assim: — "Primavera de sangue". E a metáfora, a simples metáfora, levantou o país. Eis o que eu queria dizer: — como não há mais tribunos, substituímos a retórica e a gramática do Rui pela piada. Os ladrões de banco não inspiram o nosso medo, o nosso espanto, o nosso horror; tampouco justificam uma providência prática da polícia. Mas o povo faz dos assaltos um novo filão de piadas. Os bandidos trancam os presentes nos banheiros. E já se diz que as bancárias querem banheiros de Paulina Bonaparte, com bicas de ouro, leite de cabra, e crocodilos deslizando sem marola etc. etc. Reparem, ao mesmo tempo, como os nossos gangsters são de um alegre cinismo. O último banco estava a dois passos de uma delegacia, a dois passos de outra delegacia e pertinho do Palácio do Exército. Não houve nem atropelo nem risco. E todos fazem a divertida constatação: — é mais arriscado atravessar uma rua do que assaltar um banco. (Texto publicado em 3 de abril de 1969)

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