Miscelâneas do Eu

Expressar as ideais, registrar os pensamentos, sonhos, devaneios num pequeno e simplório blog desta escritora amadora que vos fala são as formas que encontrei para registrar a existência neste mundo.

Não cabe a mim julgar certo ou errado e sim, escrever o que sinto sobre o que me cerca.

A única coisa que não abro mão é do amor pelos seres humanos e incompreensão diante da capacidade de alguns serem cruéis com sua própria espécie.

Nana Pimentel

terça-feira, 3 de novembro de 2009

As propagandas inesquecíveis e algumas músicas do “meu tempo”

Falando nas propagandas da minha época de menina, eu lembro de algumas e situações que as envolvem.

A música da propaganda das Duchas Corona:

Apanho o sabonete,
Pego uma canção,
E vou cantando sorridente,
Duchas Corona,
Um banho de alegria,
Um mundo de água quente !!!
lembro que mudamos a letra e cantávamos mas agora não lembro como era.



Tinha a propaganda da Rexona: "Com Rexona sempre cabe mais um ! "

Do Denorex: … Caspa, eu ??? (Denorex, que parece remédio, mas não é !)


Xampu Colorama: "Você se lembra da minha voz ? Continua a mesma, mas os meus cabelos... , quanta diferença !"


Das vitaminas para crianças tais como: Biotônico Fontoura


Nas propagandas, a propaganda do cotonete era bem legal. Ele era azul do Cotonete Johnsons que ficava se enxugando e dançando !
Cotonetes Johnson & Johnson - "Banheira"- 1978


E dos Calçados Ortopé com o Ferrugem, um menino ruivinho, com uma música assim:
"Ortopé, Ortopé, tão bonitinho ,
Use Ortopé pra proteger o seu pezinho,
Tênis e botinhas,
sandálias, sapatinhos,
Ortopé, Ortopé, tão bonitinho !"

Tinha também a propaganda das Casas Pernambucanas. Essa eu não esqueci da música que era assim:
Toc, toc, toc;
Quem Bate ? - É o Friooooo....
Não adianta bater, eu não deixo você entrar,
As Casas Pernambucanas,
É que vão aquecer o meu lar !
Vou comprar flanelas;
Lãs e cobertores eu vou comprar;
Nas Casas Pernambucanas;
e não vou sentir o inverno passar !



Outras músicas bem divertida eram dos programas Plunct Plact Zummmm,





Balão Mágico,



e a Arca de Noé


e do grupo Menudo cantando Não se reprima...Essas músicas eu e minhas primas decorávamos, ensaiávamos e apresentávamos pra vó Eva e pro meu falecido vô Antenor. Com paciência eles assistiam até o fim a apresentação.


O Eduardo Dusek cantando Troque seu cachorro por uma criança pobre...


era muito bom; e cantávamos bastante assim como A Menina Veneno do Ritchie,


RPM;



e as músicas da Blitz que não cansávamos de ouvir e cantar "Voce não soube me amar.."


E, claro a dos meus discos das Patotinhas. Elas dançavam de patins e cantavam. E, eu obviamente, imitava cada gesto.

Gengibira, é uma soda caseira de gengibre.

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009
Spritzbier


- refrigerante caseiro alemão


*** depois de pronta a bebida tem de ser mantida fria!




ingredientes:

- 1,5 kg de açúcar cristal

- 10 litros de água filtrada, ou mineral

- 100 g de raiz de gengibre fresco

- 1 c.s. de Quilaya

- 1 c.c. de fermento biológico seco





Material

- Garrafas com tampa rosca (de preferência de vidro)

- Uma panela grande,com tampa.

- Coador

- Funil

- Copo medidor





Na panela, junte 3 litros de água, a quiláia, o gengibre cortado em rodelas.

Deixe ferver e cozinhe em fogo baixo por cerca de 1 hora e meia.

Desligue e adicione o açúcar, mexendo bem.

Espere o líquido amornar e junte o fermento.

Cubra com uma toalha e deixar descansar por 48 horas (ou até 72 horas, em clima mais frio).

Coe e adicione o restante da água, até completar os 10 litros.

Engarrafe a bebida (não encher totalmente, deixar uns três dedos vazio) e deixe fora da geladeira por cerca de 48 horas (ou mais tempo, se a temperatura ambiente for baixa).

Para testar se a bebida está pronta abra uma garrafa e observe se está espumante.

Levar à geladeira.

sábado, 31 de outubro de 2009

jogos e brincadeiras da infância

Entre os jogos e brinquedos da infância, os que marcaram muito foram esses:

Joguei muito com meus avós paternos. O Jogo de Ludo que podia ser jogado por até 4 pessoas. Cada um com um pino de cor diferente (vermelho, verde, azul e laranja) , o objetivo era dar a volta no tabuleiro e chegar até a casinha da mesma cor da peça. Quem colocasse as 4 peças dentro da casinha ganhava! Canastra, Pif paf.

Eu tinha um jogo, Banco Imobiliário, que nossa “turma de crianças da rua”, explicando, vizinhos, nos reuníamos em dias de chuva pra brincarmos. O Morumbi era meu sonho de consumo, adorava comprar apartamento ali.

Um dos meus amigos de infância tinha o Trunfo e depois Super Trunfo. Era um tipo de baralho mostrando carros, motos, aviões, caminhões e outros detalhes. O jogo era tu derrotar o adversário mostrando uma carta com um dos critérios mais alto que o dele. PR exemplo: nessa rodada e com a metade das cartas já com cada jogador, um dos jogadores diz: quero disputar velocidade e coloca um carro na mesa. O outro coloca outro carro. Detalhe, virados com cabeça pra baixo. Feito isso os dois viram as cartas ao mesmo tempo e quem tiver o carro de maior velocidade, leva a carta. Assim vai. Alguns critérios eram velocidade, potência comprimento, força.

Outra coisa legal era brincar no forte apache de madeira com aqueles índiozinhos de plástico que o irmão da Simone, vizinha de frente, tinha. Ele tinha também, uma coleção de bonecos Playmobil com o faroeste. Esse ele não gostava muito da gente brincando mas brincávamos mesmo assim.

As experiências com o Laboratório Químico Experimental eram outra diversão. Esse, a Roberta ganhou dos pais e íamos a tarde brincar com o laboratório na casa dela.
Tinha coleções da boneca fofolete que vinha numa caixinha quase do tamanho de uma de fósforo. Essa sei que ainda existe porque minha filha me deu duas de presente. Amei

Nas brincadeiras do colégio lembro de Adoletá com o verso: Adole-tá, Le Peti, Le Tomá, Le Café com Chocolá, Adole-tá. Esse era cantado enquanto pulávamos corda. Quem errava trilhava a corda pra outra.

E as brincadeiras com as mãos dizendo:
O trem maluco quando sai de Pernambuco;
Vai fazendo xique xique até chegar no Ceará;
Rebola pai mãe filho eu também sou da família também quero rebolar;
Um pouquinho da Coca-Cola um pouquinho de Guaraná;

Minha mãe me botou na escola pra aprender o be-a-bá;
A danada da professora me ensinou a namorar;
7 e 7 são 14 com mais 7 21;
Tenho 7 namorados mas não gosto de nenhum;
Cada vez que vejo um...
Dou um tapa no bumbum !

Pombinha branca que está fazendo;
Lavando roupa pro casamento;
Moço bonito, todo arrumado;
Chapéu de lado, meu namorado;
Mandei entrar, mandei sentar;
Cuspiu no chão ?
Limpa aí seu porcalhão !

Hoje é Domingo pede cachimbo;
Cachimbo é de barro bate no jarro;
O jarro é de ouro bate no touro;
O touro é valente chifra a gente;
A gente é fraco cai no buraco;
Buraco é fundo, acabou-se o mundo !

Alguem chegou a jogar Rouba-Monte? Burro? E o Jó-Ken-Pô, Pedra, Papel e Tesoura? Eram brincadeiras muito boas.

As brincadeiras de passa-anel e stop eram legais mas bom mesmo era brincar de salada de fruta, só pra dar beijo no menino que interessava. Rsrsrs

E para finalizar essas brincadeiras e jogos, eu tinha um amigo quando muito pequena chamado Rogério que tinha um boneco Falcon. Esse boneco tinha cabelo e barba de verdade e os olhos mexiam. Quando ia na casa dele, brincávamos com ele e minha Susi. Os dois eram amigos e se aventuravam. Na época eu deveria ter uns 6 anos.

E as leituras e coleções?

Crianças adoram colecionar, porque? Não sei. Nunca parei pra pensar a respeito disso mas deve haver algum motivo e uma consequencia também na sua formação de "ser adulto".

Bom, independete disso. Eu fui uma criança como outra qualquer e tinha minhas coloções e leiturar prediletas. Diria que todos deveriam curtir esse tipo de coisas.

As coleções que vou me referir nesse momento é de álbum de figurinhas. Já os livros, falo nas próximas linhas.



Tu compravas um monte de pacotinhos e sempre ficava faltando uma figurinha no álbum. Ai, a gente trocava com os colegas. Às vezes tinham até negócios envolvidos. Lembro que uma vez eu queria tanto uma figurinha do meu álbum ciências, Ciência Ilustrada, que cheguei a negociar com uma amiga por 5 figurinhas minhas em troca daquela.

Outro álbum que tive e adorei foi das tampinhas de garrafas com os personagens da Disney. Este eu tive ajuda pra colecionar. Havia um bar em frente de casa do Seu Almerindo e ele guardava todas as tampinhas de refrigerante pra mim. Era uma felicidade só quando ele me entregava uns vidros enormes e cheios de tampinhas.

Tinham amigas minhas que colecionavam o álbum “Amar é...” e papel de carta. Esses nunca me chamaram a atenção a ponto de colecionar. No máximo tinha uma meia dúzia de papeis e figurinhas.

Agora sim, falando um pouquinho de livros, posso dizer que os amo até hoje. Nossa, ler um livro leva a sonhar. E é tão bom sonhar! Muitos adultos perdem essa capacidade e vão se tornando pessoas amargas sem capacidade de serem leves, inconsequentes em suas mentes. Não conseguem brincar com o imaginário e suas mentes práticas e imediatistas os impedem de sensações de felicidade. É óbvio, que nós adultos temos inúmeras responsabilidades, problemas e no nosso diário pouquíssimos momentos que podemos ser inconsequentes. Mas nem por isso, a nossa capacidade de imaginar precisa ser apagada. Se tu não ganhou na sena e talvez, nunca venha ganhar. Feche os olhos por instantes na sua cama e sonhe com o prazer que isso daria. Se nunca se lambuzou com sorvete e deu uma bela de uma gargalhada, imagine por um segundo que tu fez isso. Se nunca tocou a campainha do vizinho e saiu correndo dando risada (em fiz inúmeras vezes na infância - rsrsrs), experimente imaginar o que sentirias. Viva! A vida é muito curta. Eu tenho pressa porque posso não estar aqui amanhã. Curta cada momento. Agora, voltando aos livros, eles te permitem sonhar, experimente.

Eu adorava ler a coleção de crônicas "Para Gostar de Ler". Aliás todos meus amigos também.



Nessa época a Agatha Cristye também era muito lida por nós.




Induza seus filhos a lerem. Leia pra eles e pra ti mesmo.

Ah, já ia esquecendo. Tinha um trabalho investigativos feito por nós meninas sobre os meninos. Se não descobríamos o que queríamos, pelo menos treinávamos a escrita. rsrsrs. Criávamos uns cadernos de de enquetes onde existiam perguntas do tipo: "Tu já beijou ?", "Tu gosta de alguém?", "Ele sabe que tu gosta dele?" e etc. Amaioria das vezes a gente escrevia o que queríamos que o menino soubesse e "sem querer" ele pegava o questionário e lia. rsrsrs. As vezes dava certo mas outras...era um desastre.

É a hora do GIBI

Revista em quadrilhos, vulgo, gibi, é tudo que uma criança gosta. Leitura rápida, frases curtas, muita imagem. Ou pelo menos era o que as crianças da minha geração gostavam. Pra recordar um pouco vou postar umas imagens.








Fazia coleção de revistas em quadrinho da Disney: Manual do Escoteiro Mirim, Tio Patinhas, Manual do Professor Pardal, Pateta , Mickey, Pato Donald ....
Mas amava os da Turma da Mônica, os da Luluzinha e Bolinha e sua turma. Este apareciam as estórias com Aninha, o Alvinho, o Vovô Fracolino, o Careca, o Plínio, a Glória e a minha amada Pipa.





máquina fotográfica Xereta Kodak e LOVE

Quando menina adorava tirar fotos e ser fotografada também. Sempre que podia batia algumas mas tinha um grande problema. É o seguinte, as revelações eram caríssima e muitas vezes eu batia as fotos que queria mas como minha mãe pagava a revelação, ela dizia ser dela. Isso causou muitas confusões e brigas caseiras. Nossa! Só de lembrar causa transtornos. rsrsrs. brincadeirinha. até essas confusões são legais de recordar. Afinal, o que fazer se o amor transcede os papeis fotográficos ao desejo de propriedade. rsrsrs





Eu tinha máquinas fotográficas Xereta da Kodak que usavam aqueles cubos de FLASH e outra que era Love.





Essa última, a gente batia as fotos e mandava para o endereço que vinha nela por correio para que mandassem revelada as fotos.

domingo, 11 de outubro de 2009

Botero




Fernando Botero é um pintor e escultor colombiano, nascido em 1932, na cidade de Medellin. Suas obras destacam-se sobretudo por figuras rotundas, o que pode sugerir a estaticidade da humanidade. Há de se perceber uma crítica social, especialmente no que diz respeito à ganância do ser humano.

Nos anos 50 estudou em Madri, onde acrescentou os mestres ..... espanhóis a seu interesse por arte pré-colombiana, colonial espanhola e pelos temas políticos do muralista mexicano Diego Rivera. Sua primeira mostra foi em 1951, em Bogotá, mas sua formação para valer teve início em 1953, quando ingressou na Academia de San Marco (Florença), para estudar ... camilla..técnicas de afresco e assimilou algo da arte renascentista.

Botero, em intertextualidade com a famosa obra de Jan van Eyck, Casal Arnolfini, criou sua releitura do quadro, claro, com formas redondas, assim como fez com a famosa Monalisa de Leonardo da Vinci.

Botero também foi um grande escritor de crônicas.

mais figuras aqui:
Botero

Salvador Dali

Meus pintores prediletos terão aqui um espacinho pra eles e suas obras fantásticas.






Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech, 1º Marquês de Dalí de Púbol (Figueres, 11 de Maio de 1904 — Figueres, 23 de Janeiro de 1989), conhecido apenas como Salvador Dalí, foi um importante pintor catalão, conhecido pelo seu trabalho surrealista. O trabalho de Dalí chama a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras, oníricas, com excelente qualidade plástica. Dalí foi influenciado pelos mestres da Renascença. O seu trabalho mais conhecido, A Persistência da Memória, foi concluído em 1931. Salvador Dalí teve também trabalhos artísticos no cinema, escultura, e fotografia. Ele colaborou com a Walt Disney no curta de animação Destino, que foi lançado postumamente em 2003 e, ao lado de Alfred Hitchcock, no filme Spellbound.



Dalí insistiu em sua "linhagem árabe", alegando que os seus antepassados eram descendentes de mouros que ocuparam o sul da Espanha por quase 800 anos (711 a 1492), e atribui a isso o seu amor de tudo o que é excessivo e dourado, sua paixão pelo luxo e seu amor oriental por roupas. Tinha uma reconhecida tendência a atitudes e realizações extravagantes destinadas a chamar a atenção, o que por vezes aborrecia aqueles que apreciavam a sua arte. Ao mesmo tempo que incomodava os seus críticos, já que sua forma de estar teatral e excêntrica tendia a eclipsar o seu trabalho artístico.



Salvador Felipe Jacinto Dalí i Domènech nasceu às 8h45 da manhã de 11 de maio de 1904, no número vinte da carrer (rua) Monturiolin da vila de Figueres, Catalunha, Espanha. Seu irmão mais velho, também chamado Salvador (nascido em 12 de outubro de 1901), havia morrido de gastroenterite, nove meses antes, em 1 de agosto de 1903". Seu pai, Salvador Dalí i Cusí, era um advogado de classe-média, figura popular da cidade e senhor de um caráter irrascível e dominador, sua mãe, Felipa Domenech Ferrés, sempre incentivou os esforços artistícos do filho.. Dalí também teve uma irmã, Ana Maria, que era três anos mais nova. Em 1949, ela publicou um livro sobre seu irmão, "Dalí visto por sua irmã".

Dalí frequentou a Escola de Desenho Municipal, onde iniciou a sua educação artística formal. Em 1916, durante umas férias de verão em Cadaquès, passadas com a família de Ramon Pichot, descobriu a pintura impressionista. Pichot era um artista local que fazia viagens frequentes a Paris. No ano seguinte, o pai de Dalí organizou uma exposição dos desenhos a carvão do filho na sua casa de família. Sua primeira exposição pública ocorreu no Teatro Municipal em Figueres em 1919.



Em fevereiro de 1921 sua mãe morreu de câncer de mama. Dalí, então com dezesseis anos de idade, disse depois da morte de sua mãe: "foi o maior golpe que eu havia experimentado em minha vida. Eu adorava ela… eu não podia resignar-me a perda de um ser com quem eu contei para tornar invisíveis as inevitáveis manchas de minha alma" Após a morte Felipa Domenech Ferrés, o pai de Dalí casou-se com a irmã de falecida esposa. Dalí não resentiu este casamento, como alguns pensam, pois ele tinha um grande amor e respeito em relação à tia.

Em outubro de 1921, Dalí foi viver em Madrid, onde estudou na Academia de Artes de San Fernando. Já então Dalí chamava a atenção nas ruas como um excêntrico cabelo comprido, um grande laço ao pescoço, calças até ao joelho, meias altas e casacos compridos. O que lhe granjeou maior atenção por parte dos colegas foram os quadros onde fez experiências com o cubismo (embora na época destes primeiros trabalhos cubistas ele provavelmente não compreendesse por completo o movimento, dado que tudo o que sabia de arte cubista provinha de alguns artigos de revistas e de um catálogo que Ramon Pichot lhe oferecera, visto não haver artistas cubistas, neste tempo, em Madrid).

Fez também experiências com o Dadaísmo, que provavelmente influenciou todo o seu trabalho. Nesta altura, tornou-se amigo íntimo do poeta Federico García Lorca e de Luis Buñuel. Dalí foi expulso da Academia em 1926, pouco tempo depois dos exames finais, em que declarou que ninguém na Academia era suficientemente competente para o avaliar.Seu domínio de competências na pintura está bem documentado, nesse tempo, em sua impecável e realista pintura "Cesto de Pão", de 1926.

Em 1924 o ainda desconhecido Salvador Dalí ilustrava pela primeira vez um livro, o poema catalão "Les bruixes de Llers" ( "As bruxas de Llers") de seu amigo, o poeta Carles Fages de Climent.

Foi nesse mesmo ano fez a sua primeira viagem a Paris, onde encontrou-se com Pablo Picasso, que era reverenciado pelo jovem Dalí. ("Vim vê-lo antes de ir ao Louvre", disse-lhe Dalí. "Fez você muito bem", respondeu-lhe Picasso.) O artista mais velho já tinha ouvido falar bem de Dalí através de Juan Miró. Nos anos seguintes, realizou uma série de trabalhos fortemente influenciados por Picasso e Miró, enquanto ia desenvolvendo o seu estilo próprio. Algumas tendências no trabalho de Dalí que iriam permanecer ao longo de toda a sua carreira já eram evidentes na década de 20, principalmente por Raphael, Bronzino, Francisco de Zurbarán, Vermeer, e Velázquez. As exposições de seus trabalhos em Barcelona despertaram grande atenção e uma mistura de elogios e debates e causando por parte dos críticos. Nesta época, Dalí deixou crescer o bigode, que se tornou emblemático a ele, estilo baseado no pintor do século XVII espanhol Diego Velázquez.

Em 1929, colaborou com o cineasta espanhol Luis Buñuel no curta-metragem Un Chien Andalou, e conheceu, em agosto, a sua musa e futura mulher, Gala Éluard (cujo nome verdadeiro é Elena Ivanovna Diakonova, nascida em 7 de Setembro de 1894, em Kazan, Tartária, Rússia), uma imigrante russa dez anos mais velha que Dalí, casada na época com o poeta surrealista Paul Éluard. Juntou-se oficialmente ao grupo surrealista no bairro parisiense de Montparnasse (embora o seu trabalho já estivesse há dois anos sendo influenciado pelo surrealismo). Em 1934 Dalí e Gala, que já viviam juntos deste 1929, casaram-se numa cerimónia civil.





A política desempenhou um papel significativo na sua emergência como um artista. Ele foi por vezes retratado como um apoiante do autoritário Francisco Franco. André Breton, líder do movimento surrealista, fez um grande esforço para dissociar o seu nome do surrealismo. A realidade é provavelmente um pouco mais complexa. Em qualquer caso, ele não era um anti-semita, pois era inclusive amigo do famoso arquiteto e designer Paulo László, que era judeu. Ele também proferiu grande admiração por Freud(a quem ele conheceu), e Einstein, ambos judeus.

Em sua juventude, Dalí abraçou por um tempo tanto anarquismo como o comunismo. Em seu livro, Dalí, em 1970, declara-se um anarquista e monarquista. Enquanto na cidade de Nova Iorque em 1942, ele denunciou o seu colega, o cineasta surrealista Luis Buñuel como ateu, o que levou Buñuel a ser despedido de sua posição no Museu de Arte Moderna e, posteriormente, constar na lista negra da indústria cinematográfica estadunidense.

Com a eclosão da Guerra Civil Espanhola, Dalí fugiu e se recusou a alinhar-se a qualquer grupo. Após o seu regresso à Catalunha após a Segunda Guerra Mundial, Dalí se tornou mais próximo ao regime de Franco. Alguns declaram que Dalí apoiou o regime de Franco, felicitando-o por suas ações tendências de "limpar a Espanha de forças destrutivas". Dalí, depois de ter retornado para a religiosidade católica, e cada vez mais à medida que o tempo passava, Dalí certamente referia-se à comunistas, socialistas e anarquistas, que haviam matado quase 7000 religiosos e religiosas durante a Guerra Civil Espanhola. Dalí enviou uma mensagem a Franco, "elogiando-lhe por assinatura a morte e os mandados de presos políticos." Dalí encontro Franco uma vez. Dalí sequer reuniu-se pessoalmente Franco para pintar um retrato de sua neta. É impossível determinar se suas homenagens a Franco foram sinceros ou caprichosos, uma vez que ele também enviou um telegrama louvando o romeno Nicolae Ceausescu, líder comunista. O jornal diário romeno "Scînteia" publicou-o, sem suspeitar seu aspecto de troça.

Em 1960, Dalí começou a trabalhar no Teatro-Museum Salvador Dalí, na sua terra natal, em Figueres. Foi o projeto de maior vulto de toda a sua carreira e o principal foco de suas energias até 1974, embora continuasse a fazer acrescentos até meados dos de 1980.
Teatro-Museu Dalí

Gala morreu em Port Lligat na madrugada de 10 de Junho de 1982 Desde então, Dalí ficou profundamente deprimido e desorientado, perdendo toda a vontade de viver. Recusava-se a comer, ficando desidratado, teve de ser alimentado por uma sonda nasal. Em 1980, um coquetel de medicamento não prescrito danificou seu sistema nervoso, provocando assim um inoportuno fim a sua capacidade artística. Aos 76 anos, a "cada vez saudável" Dalí sofre tremores terríveis ao seu lado direito, causado pelo Mal de Parkinson.

Mudou-se de Figueres para o castelo em Pubol, que comprara para Gala. Em 1984, deflagrou um incêndio no seu quarto em circunstâncias pouco claras — talvez tenha sido uma tentativa de suicídio de Dalí, talvez tenha sido uma tentativa de
Túmulo de Salvador Dalí

homicídio de um empregado, ou talvez simples negligência pelo seu pessoal — mas Dalí foi salvo e levado para Figueres, onde um grupo de amigos, patronos e artistas se assegurou de que o pintor vivesse confortavelmente os seus últimos anos no teatro-museu.

Em novembro de 1988 Dalí foi levado ao hospital com insuficiência cardíaca e em 5 de dezembro de 1988 foi visitado pelo rei Juan Carlos da Espanha, que confessou ter sido sempre um devoto de Dalí.Em 23 de janeiro de 1989, enquanto o seu favorito e recorde de Tristan Isolde jogava, morreu de insuficiência cardíaca em Figueres, com a idade de 84, e, vindo círculo completo, está sepultado na cripta do seu Teatro-Museu Dalí, em Figueres, do outro lado da rua, a partir da igreja de Sant Pere. onde ocorreram seu funeral, primeira comunhão, e de batismo, a três quarteirões da casa onde nasceu.
… Estou pintando quadros que me fazem morrer de alegria, estou criando com absoluta naturalidade, sem a menor preocupação estética, estou fazendo coisas que me inspiram com uma profunda emoção e estou tentando pintá-los com honestidade.

Dalí explorou intensamente o Simbolismo em seu trabalho. Por exemplo, a marca dos relógios fundidos que aparecem inicialmente em A persistência da memória, sugerem teoria de Einstein de que o tempo é relativo e não fixo.A idéia de relógios simbolicamente funcionamento desta forma foi criada quando Dalí viu um pedaço de queijo Camembert derretendo em um dia quente de agosto.

O elefante é também uma imagem recorrente nas obras do Dalí. Ele apareceu pela primeira vez em 1944, em sua obra Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar. Os elefantes, inspirados por Gian Lorenzo Bernini, em Roma base da escultura de um elefante transportando um antigo obelisco.Conjugada a imagem de suas pernas quebradiças, esse comprometimento em criar um sentimento de fantasmagórico da realidade. "O elefante é uma distorção do espaço, em uma análise explica, "as suas pernas contrastam com a idéia de imponderabilidade com a estrutura."

O ovo é outra imagem comum na obra de Dalí, o qual expressa a ideal pré-natal e intrauterina, que aparece em O grande masturbador e Metamorfose de Narciso e assim utilizá-lo para simbolizar a esperança e a caridade. Diversos animais aparecem em todo o seu trabalho: formigas remontam à morte, decadência, e o imenso desejo sexual; o caramujo relaciona-se com a cabeça humana. Esta idéia partiu de quando avistou um caramujo em cima de uma bicicleta, perto da casa de Freud, quando se conheceram; e gafanhotos são um símbolos de desperdício e de medo.

Surrealismo irá, pelo menos, ter servido para dar prova de que a experimentação total da esterilidade e das tentativas de automatizações terem ido longe demais e de terem conduzido a um sistema totalitário... Hoje, a preguiça e a total falta de técnica chegaram ao seu paroxismo no significado psicológico da atual utilização da faculdade.

André Breton acusou Dalí de defensor do "novo" e "irracional" no "Fenômeno Hitler", mas o artista rapidamente rejeitava esta alegação dizendo, "Eu nem sou hitleriano de fato, nem de intenção."No entanto, quando Francisco Franco chegou ao poder no rescaldo da Guerra Civil Espanhola, o apoio ao novo regime, entre outras coisas, leveram a sua suposta expulsão do grupo surrealista. Depois disso, Dalí replicou, "Eu sou o próprio surrealismo".André Breton cunhou o anagrama "avida dólares" (por Salvador Dalí), que pode ser traduzido como "ansiosos por dólares," a que se referiu a Dalí após o período de sua expulsão. Os surrealistas mais radiciais falavam de Dalí no passado, como se ele estivesse morto. Nesta fase foi o seu principal patrono Edward James, um poeta e patrono do movimento surrealista. O surrealismo e de vários membros, como Ted Joans, continuariam a questão extremamente dura e polêmica contra Dalí, até ao momento da sua morte e mais além.

Edward James ajudou o jovem Salvador Dalí a emergir no mundo da arte através da compra de muitas obras e do apoio financeiro durante dois anos. Eles se tornaram bons amigos e James caracteriza a pintura de Dalí como "Cisnes refletindo elefantes." Ele também colaborou com dois dos mais duradouros ícones do movimento surrealista: o Telfone-lagosta e o Sofá-lábios de Mae West.




"Durante este período Dalí nunca parou de escrever", escreveu Robert Descharnes e Nicolas. Em 1941, ele elaborou um filme chamado "Cenário de Jean Gabin Moontide". Ele escreveu catálogos de exposições como a sua que, na Knoedler Gallery [na cidade de Nova Iorque em 1943], onde expunha.Ele também escreveu um romance (publicado em 1944) acerca de um salão de automóveis moda. Isso começou com um desenho Edwin Cox, em O Miami Herald mostrando-lhe vestir um automóvel em uma noite bata."

Em 1940, no início da II Guerra Mundial na Europa, Dalí e Gala mudaram-se para os Estados Unidos da América, onde viveram durante oito anos. Após este período, Dalí regressou para a prática do catolicismo. Em 1942, ele publicou sua autobiografia, A Vida Secreta de Salvador Dalí. Um frei italiano, Gabriele Maria Berardi, alegou ter realizado um exorcismo em Dalí, enquanto ele estava na França em 1947. Gabriel possuia uma escultura de Cristo na cruz que Dalí tinha dado o seu exorcista de agradecer a ele.A escultura foi descoberta em 2005, e dois peritos em Surrealismo espanhol confirmaram que havia motivos suficientes para crer em similariades entre outras esculturas feitas por Dalí.

Foi na sua amada Catalunha que Dalí viveu o resto da vida. O facto de ter escolhido viver em Espanha enquanto o país era governado pelo ditador fascista Francisco Franco trouxe-lhe críticas dos progressistas e de muitos outros artistas.Alguns pensam que o desprezo comum pelo trabalho tardio de Dalí tem mais a ver com política do que com os verdadeiros méritos desse trabalho. Em 1959, André Breton organizou uma exposição denominada de "Homenagem ao Surrealismo", em que comemora os quadragésimo aniversário do Surrealismo, que incluiu obras de Salvador Dalí, Joan Miró, Enrique Tábara, e a Eugenio Granell. Breton combateu com veemência a inclusão de de Sistine Madonna, no Expoisição Internacional Surrealismo em Nova Iorque no ano seguinte.

Após a Segunda Guerra Mundial, Dali manteve características de virtuosismo técnico e um interesse na ilusão óptica, ciência e religião. Cada vez mais católica e inspirado pelo choque de Hiroshima, denarcado por ele como "Misticismos Nucleares". Em pinturas como Madonna de Port-O Lligat (primeira versão) de 1949, Corpus Hypercubus e de 1954, Dalí procurou sintetizar a iconografia cristã com imagens inspiradas pela desintegração dos materiais nucleares. Obras como La Gare de Perpignan, de 1965, alucinogéneos e Toreador de 1968-1970. Em 1960, Dalí começou trabalhos sobre o Teatro e Museu de sua cidade-natal de Figueres; foi o seu maior projecto único e o principal foco da sua energia até 1974.


Em 1968, Dalí filmou um anúncio de televisão para Lanvin chocolates e de 1969 projetou o logotipo da empresa Chupa Chups. Também em 1969, ele foi responsável pela criação do aspecto da publicidade 1969 Festival Eurovisão da Canção, metal e criou uma grande escultura, que se situava no palco, no Teatro Real de Madri. Dalí produziu mais de 1500 quadros ao longo da sua carreira, e também ilustrações para livros, litografias, desenhos para cenários e trajes de teatro, um grande número de desenhos, dezenas de esculturas e vários outros projectos.

fonte: wikipedia

mais figuras aqui:
Salvador Dali

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Nelson Rodriguês e textos

Simplesmente paixão. É isso que Nelson Rodriguês desperta em mim. Paixão por sua capacidade criativa em situações inusitadas, corriqueiras e enlouquecedoras. Adoro seu trabalho e posto aqui alguns deles.



Nelson Rodrigues



O beijo no asfalto
Estilo Tragédia contemporânea contrastando poesia e vulgaridade. Conserva-se fiel ao expressionismo freudiano e realismo, o autor vem de encontro a preconceitos e inseguranças bem como à falsidade, ao juízo fundado na aparência e a condições unânimes. Enredo Arandir testemunha um atropelamento e ao socorrer a vítima, dálhe um beijo na boca a pedido do agonizante. É imediatamente acusado de homossexualismo pela imprensa e pela polícia. Ridicularizado perante a opinião pública os amigos e desamparado pela esposa (Selminha) vem a refugiar-se em uma pensão É visitado pelo sogro (Aprígio) que declara-lhe seu ódio, revelando-se apaixonado por ele e com ciúmes pelo fato de Arandir ter-se casado com Selminha e por vir a beijar outro . Com dos tiros Arandir é morto por Aprígio. Fragmento "(...) Em toda a minha vida, a única coisa que salva é o beijo no asfalto (...) É lindo! é lindo, eles não entendem. Lindo beijar quem está morrendo (grita). Eu não me arrependo! Eu não me arrependo." Cale-se. Preste Atenção "O morto é o grande personagem invisível, Arandir ao beijar o agonizante, beijou a morte na boca".

Nelson Rodrigues Lua de Mel
Seguindo a sugestão do sogro, de não quis investigar as causas da mudança da esposa. Tratou de extrair o máximo possível da situação, tanto mais que passara a viver num regime de lua-de-mel. Dias depois, porém, recebe uma minuciosíssima carta anónima, com dados, nomes, endereços, duma imensa verosimilhança. O missivista desconhecido começava assim: "Tua mulher e o Cunha...". O Cunha era, talvez, o seu maior amigo e jantava três vezes por semana ou, no mínimo, duas, com o casal. A carta anónima dava até o número do edifício e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes se encontravam. Filadelfo lê aquilo, relê e rasga, em mil pedacinhos, o papel indecoroso. Pensa no Cunha, que é solteiro, simpático, quase bonito e tem bons dentes. Uma conclusão se impõe: sua felicidade conjugal, na última fase, é feita á base do Cunha. Filadelfo continuou sua vida, sem se dar por achado, tanto mais que Jupira revivia, agora, os momentos áureos da lua-de-mel. Certa vez jantavam os três, quando cai o guardanapo de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente, debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por cima dos outros. Passa-se o tempo e Filadelfo recebe a noticia: o Cunha ficara noivo! Vai para casa, preocupadíssimo. E, lá, encontra a mulher de bruços, na cama, aos soluços. Num desespero obtuso, ela diz e repete: - Eu quero morrer! Eu quero morrer! Filadelfo olhou só: não fez nenhum comentário. Vai numa gaveta, apanha o revólver e sai á procura do outro. Quando o encontra, cria o dilema: - Ou você desmancha esse noivado ou dou-lhe um tiro na boca, seu cachorro! No dia seguinte, o apavorado Cunha escreve uma carta ao futuro sogro, dando o dito por não dito. Á noite, comparecia, escabreado, para jantar com o casal. E, então, á mesa, Filadelfo vira-se para o amigo e decide: - Você, agora, vem jantar aqui todas as noites! Quando o Cunha saiu, passada a meia-noite, Jupira atira-se nos braços do marido: - Você é um amor!

Nelson Rodrigues Misericórdia
Foi uma conversa que se alongou por toda uma noite. No seu desespero inicial, ele berrava: "Cínica! Cínica!". E soluçava: "Nunca teve um beijo meu, que sou seu noivo, e vai ter o filho do outro!". O pai, porém, conseguiu, após poucos, aplacá-lo. Sustentou a tese de que todos nós, afinal de contas, somos falíveis e, particularmente, as mulheres: "Elas são de vidro", afirmava. Alta madrugada, o pobre-diabo pergunta: "E eu? Devo fazer o quê?". Justiça se lhe faça - o velho foi magnífico: "Perdoar. Perdoa, meu filho, perdoa!". Quis protestar: "Ela merece um tiro!". Mais que depressa, seu Notário atalha: — Ela, não, nunca! Ele, sim! Ele merece! — Quem? Baixa a voz: "O pai da criança! Esse filho não caiu do céu, de pára-quedas! Há um culpado". Pausa. os dois se entreolham. Seu Notário segura o filho pelos dois braços: — Antes de ti, Edila teve um namorado. Deve ter sido ele. Se fosse comigo, eu matava o cara que... Ergue-se, transfigurado, quase eufórico: "Tem razão, meu pai! O senhor sempre tem razão!".

Nelson Rodrigues Mudança
Um mês depois, ele chega em casa, do trabalho, e acontece uma coisa sem precedentes: a mulher, pintada, perfumada, se atira nos seus braços. Foi uma surpresa tão violenta que Filadelfo perde o equilíbrio e quase cai. Em seguida, ela aperta entre as mãos o seu rosto e o beija na boca, num arrebatamento de namorada, de noiva ou de esposa em lua-de-mel. Ele apanha o jornal, que deixara cair. Maravilhado, pergunta: - Mas que é isso? Que foi que houve? Jupira responde com outra pergunta: - Não gostou? Ele senta confuso. - Gostar, gostei, mas... - Ri: - Você não é assim, você não me beija nunca. Jupira tem um gesto de uma petulância que o delícia: vem sentar-se no seu colo, encosta o rosto no dele. Filadelfo é acariciado. Acaba perguntando: - Explica este mistério. Aconteceu alguma coisa. Aconteceu? Ela suspira: - Mudei ora!

Nelson Rodrigues Novo parto
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada ás pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: "Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário: - Meus dentes estão doendo! E, de fato, o grande termómetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura. A parteira duvidou, mas, dai a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha. Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão: - Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!

Nelson Rodrigues O amor imortal
Há três ou quatro semanas que o Menezes falava num novo amor imortal. Contava, para os companheiros embasbacados: - "Mulher de um pediatra, mas olha: - um colosso! ". Queriam saber: - "Topa ou não topa?". Esfregava as mãos, radiante: - Estou dando em cima, salivando. Está indo. Todas as manhãs, quando o Menezes pisava no escritório, os companheiros o recebiam com a pergunta: - "E a cara?". Tirando o paletó, feliz da vida, respondia: - Está quase. Ontem, falamos no telefone quatro horas! Os colegas pasmavam para esse desperdício: - "Isso não é mais cantada, é ...E o vento levou". Meireles sustentava o princípio que nem a Ava Gardner, nem a Cleópatra justificam quatro horas de telefone. Menezes protestava: - Essa vale! Vale, sim senhor! Perfeitamente, vale! E, além disso, nunca fez isso! É de uma fidelidade mórbida! Compreendeu? Doentia! E ele, que tinha filhos naturais em vários bairros do Rio de Janeiro, abandonara todos os outros casos e dava plena e total exclusividade à esposa do pediatra. Abria o coração no escritório: - Sempre tive a tara da mulher séria! Só acho graça em mulher séria! Finalmente, após quarenta e cinco dias de telefonemas desvairados, eis que a moça capitula. Toda a firma exulta. E o Menezes, passando o lenço no suor da testa, admitia: - "Custou, puxa vida! Nunca uma mulher me resistiu tanto!". E, súbito, o Menezes bate na testa: - É mesmo! Está faltando um detalhe! O apartamento! Agarra o Meireles pelo braço: - "Tu emprestas o teu?". O outro tem um repelão pânico: - Você é besta, rapaz! Minha mãe mora lá! Sossega o periquito! Mas o Menezes era teimoso. Argumenta: - Escuta, escuta! Deixa eu falar. A moça é séria. Séria pra burro. Nunca vi tanta virtude na minha vida. E eu não posso levar para uma baiúca. Tem que ser,olha: - apartamento residencial e familiar. É um favor de mãe pra filho caçula. O outro reagia: - "E minha mãe? Mora lá, rapaz!". Durante umas duas horas, pediu por tudo: - Só essa vez. Faz o seguinte: - manda a tua mãe dar uma volta. Eu passo lá duas horas no máximo! Tanto insistiu que, finalmente, o amigo bufa: - Vá lá! Mas escuta: - pela primeira e última vez! Aperta a mão do companheiro: - És uma mãe!

Nelson Rodrigues Frases
- O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade. - Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bemsucedido não interessa a ninguém. - Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de "ilustre", de "insigne", de "formidável", qualquer borra-botas. - A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem. - O brasileiro não está preparado para ser "o maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade. - Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar. - Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível. - O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas. - Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria. - Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza. - O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.

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- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. - Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — "Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!". Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão! - Em nosso século, o "grande homem" pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta. - O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda. - Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma. - Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca. - Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.

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Nelson Rodrigues O beijo
Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse sobre as possibilidades ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu, com muito empenho, sobre um ponto que considerava importantíssimo: - Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca! A garota, espantada, protestou - Ora, mamãe! E a velha: - Ora o quê? É isso mesmo! Sem beijo não há nada, está ,.tudo muito bem. OK. E com beijo pode acontecer o diabo. Você é muito menina e talvez não perceba certas coisas. Mas pode ficar certa: tudo que acontece de ruim, entre um homem e uma mulher, começa num beijo!

Nelson Rodrigues O canalha
Quando soube que a noiva tinha viajado de lotação com o Dudu, sentada no mesmo banco, pôs as mãos na cabeça: - Com o Dudu? E ela: - Com o Dudu, sim. As duas mãos enfiadas nos bolsos, andando de um lado para outro; ele estaca, finalmente, diante da pequena: - Olha, Cleonice, vou te pedir um favor de mãe pra filho. Pode ser? - Claro. Puxa um cigarro: - É o seguinte: de hoje em diante, ouviu?, de hoje em diante, tu vais negar o cumprimento ao Dudu. Admirou-se: - Por que, meu anjo? Ele explicou - Porque o Dudu é um cínico, um crápula, um canalha abjeto. Um sujeito que não respeita nem poste e que é capaz até de dar em cima de uma cunhada. O simples cumprimento de Dudu basta para contaminar uma mulher. Percebeste? - Percebi. Ainda excitado, ele enxuga com o lenço o suor da testa: - Pois é. Passou. Mas a verdade é que Cleonice ficou impressionadíssima. Dava-se com o Dudu, sem intimidade, mas cordialmente. Dançara com ele umas duas ou três vezes. Mas como o Dudu fosse fisicamente simpático e educadíssimo, Cleonice guardara dos seus contatos acidentais uma boa impressão. Caiu das nuvens ao saber que de era capaz de "dar em cima de uma cunhada" Teria, porém, esquecido. Voltando á carga, sentado com a noiva num banco de jardim público, ele começa: - Meu anjo, tu sabes que eu não tenho ciúmes. Não sabes? - Sei. Pigarreia: - Só tenho ciúmes de uma pessoa o Dudu. E nunca te esqueças: é um canalha, talvez o único canalha vivo do Brasil. Todo mundo tem defeitos e qualidades. Mas o Dudu só tem defeitos. Inexperiente da vida e dos homens, ela fazia espanto: - Mas isso é verdade? Batata? Exagerou:

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- Batatíssima! Quero ser mico de circo se estou mentindo! - E repetia, num furor terrível e inofensivo: - Indigno de entrar numa casa de família!

Obsessão
Então, sem querer, sem sentir, Lima foi fazendo do Dudu o grande e absorvente personagem de suas conversas. Argumentava: - Você é muito boba, muito inocente, nunca teve outro namorado senão eu. Queres um exemplo? sou teu noivo, vou casar contigo. Muito bem. O que é que houve entre nós dois? Uns beijinhos, só. É ou não é? Impressionada, admitiu: - Lógico! Lima continua: - Figuremos a seguinte hipótese: que, em vez de mim, fosse teu namorado o Dudu Tu pensas que de ia te respeitar como eu te respeito? Duvido! Duvido! Dudu não tem sentimento de família, de nada! É uma besta-fera, uma hiena, um chacal! Crispando-se, Cleonice suspira: "Parece impossível que existam homens assim". Lima prossegue: "Vou te dizer uma coisa mais: o Dudu olha para uma mulher como se a despisse mentalmente!"

A festa
Dias depois, Cleonice está conversando com umas coleguinhas quando alguém fala do Dudu. Então, ela olha para os lados e baixa a voz: "Ouvi dizer que o Dudu deu em cima de uma cunhada". Uma das presentes, que conhecia o rapaz, a família do rapaz, protesta: "Mas o Dudu nem tem cunhada!''. Mais tarde a espantadíssima Cleonice interpela o Lima. Ele não se dá por achado: - Eu não disse que o Dudu deu em cima de uma cunhada. Eu disse que "daria" caso tivesse. Você entendeu mal. Mais alguns dias e os dois, vão a uma festa, em casa de família. Entram e têm, imediatamente, o choque: Dudu estava lá! Junto de uma janela, com o seu bonito perfil, fumando de piteira, pálido e fatal, atraia todas as atenções. Lima aperta o braço da noiva. Diz, entredentes: "Vamos embora". Ela, espantada, pergunta: "Por quê?". O noivo a arrasta: - O Dudu está ai. E não convém, ouviu? Não convém! Imagina se ele tem o atrevimento de te tirar para dançar Deus me livre!

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O medo
Na volta da festa, Cleonice faz, pela primeira vez, um comentário irritado: - Fala menos nesse Dudu! Sabe que eu só penso nele? Te digo mais: tenho medo! Lima estaca: "Medo de que e por que, ora essa?". Ela parece confusa: - Essas coisas impressionam uma mulher. - E repete o apelo: - Não fala mais nesse cara' É um favor que te peço! Ele obstinou-se: "Falo, sim, como não? Você precisa olhar o Dudu como um verme!". Cleonice suspirou. - Você sabe o que faz!

Ódio
Corria o tempo. Todos os dias, o Lima aparecia com uma novidade: "Vi aquela besta com outra!". E se havia uma coisa que doesse nele, como uma ofensa pessoal, era a escandalosa sorte do "canalha" com as outras mulheres. Nos seus desabafos com a noiva, Lima exagerava: "Cheio de pequenas! Tem namoradas em todos os bairros!". Um dia, explodiu: - Vocês, mulheres, parece que gostam dos canalhas! Por exemplo: o meu caso. Sem falsa modéstia, sou um sujeito decente, respeitador e outros bichos. Pois bem. Não arranjava pequena nenhuma. Até hoje não compreendo como você gostou de mim, fez fé comigo e me preferiu ao Dudu. - Pausa e baixa a voz, na confissão envergonhada: - Porque o Dudu me tirou todas as outras namoradas, uma por uma. Era essa, com efeito, a origem do seu ódio por Dudu, do despeito que o envenenava.

As bodas
Chega o dia do casamento. Poucos minutos antes da cerimônia civil, Lima, transfigurado, ainda diz ao ouvido da noiva: "O Dudu roubou todas as minhas pequenas, menos você!". Pois bem. Casam-se no civil e, mais tarde, no religioso. Quase à meia-noite, estão os dois sozinhos, face a face, no apartamento que seria a nova residência. Ele, nervosíssimo, baixa a voz e pede: "Um beijo!". Ela, porém, foge com o rosto: "Não!". Lima não entende. Cleonice continua:

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- Falaste tanto e tão mal do Dudu que eu me apaixonei por ele. Eu não trairei o homem que eu amo nem com o meu marido. Lima compreendeu que a perdera. Sem uma palavra deixa o quarto nupcial. De pijama e chinelos veio para a porta da rua. Senta-se no meio-fio e põe-se a chorar.

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Nelson Rodrigues O decote
Era uma mãe enérgica, viril, à antiga. Diabética, asmática, com sessenta anos nas costas, apanhou um táxi na Tijuca e deu o endereço do filho, em Copacabana. Chegou de surpresa. A nora, que não gostava da sogra perspicaz e autoritária, torceu o nariz. Já o filho, que a respeitava acima de tudo e de todos, precipitou-se, de braços abertos, trêmulo de comoção: — Oh, que milagre! Deu-lhe o braço. Há dois anos, com efeito, que D. Margarida não entrava naquela casa. Indispôs-se com a nora, cuja beleza a irritava, e cortou o mal pela raiz: "Não ponho mais os pés aqui, nunca mais". Clara deu graças a Deus. Aquela sogra, sem papas na língua, a exasperava. E Aderbal, que era um bom filho e melhor marido, limitou-se a uma exclamação vaga e pusilânime: "Mulher é um caso sério!". Foi só. Eis que, dois anos depois, abandonando sua rancorosa intransigência, D. Margarida punha os pés naquela casa. Foi um duplo sacrifício, fisico e moral, que ela se impôs, heroicamente. Trancou-se com o filho no gabinete. Perguntou: — Sabe por que eu vim aqui? E de, impressionado: — Por quê? D. Margarida respirou fundo: — Vim lhe perguntar o seguinte: você é cego ou perdeu a vergonha? Não esperava por esse ataque frontal. Ergueu-se, desconcertado: "Mas como?". Apesar dos seus achaques, que faziam de cada movimento uma dor, D. Margarida pôs-se de pé também. Prosseguiu, implacável: — sua mulher anda fazendo os piores papéis. Ou você ignora? — E, já com os olhos turvos, uma vontade doida de chorar, interpelava-o: — Você é ou não é homem? Foi sóbrio: — Sou pai.

O pai
Há quinze anos atrás, os dois se casaram, no civil e religioso, e, como todo mundo, numa paixão recíproca e tremenda. A lua-de-mel durou o quê? Uns quinze, dezesseis dias. Mas, no décimo sétimo dia, encontrou-se Aderbal com uns amigos e, no bar, tomando uísque, de disse, por outras palavras, o seguinte: "O homem é polígamo por natureza. Uma mulher só não basta!". Quando chegou em casa, tarde, semibêbado, Clara o interpelou:

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"Que papelão, sim senhor!". Ele podia ter posto panos quentes, mas o álcool o enfurecia. Respondeu mal; e ela, numa desilusão ingênua e patética, o acusava — "Imagine! Fazer isso em plena lua-de-mel!". A réplica foi grosseira: — Que lua-de-mel? A nossa já acabou! Durante três dias e três noites, Clara não fez outra coisa senão chorar. Argumentava: "se ele fizesse isso mais tarde, vá lá. Mas agora...". A verdade é que jamais foi a mesma. Um mês depois, acusava os primeiros sintomas de gravidez, que o exame médico confirmou. E, então, aconteceu o seguinte: enquanto ela, no seu ressentimento, esfriava, Aderbal se prostrava a seus pés em adoração. Sentimental da cabeça aos pés, não podia ver uma senhora grávida que não se condoesse, que não tivesse uma vontade absurda de protegê-la. Lírico e literário, costumava dizer: "A mulher grávida merece tudo!". No caso de Clara, ainda mais, porque era o seu amor. No fim do período, nasceu uma menina. E foi até interessante: enquanto Clara gemia nos trabalhos de parto, Aderbal, no corredor, experimentava a maior dor de dente de sua vida. Mas ao nascer a criança a nevralgia desapareceu, como por milagre. E, desde o primeiro momento, ele foi, na vida, acima de tudo, o pai. Esquecia-se da mulher ou negligenciava seus deveres de esposo. Mas, jamais, em momento algum, deixou de adorar a pequena Mirna. Incidia em todas as inevitáveis infantilidades de pai. Perguntava: "Não é a minha cara?". Os parentes, os amigos, comentavam: — Aderbal está bobo com a filha!

A esposa
Quando Mirna fez oito anos, ele recebeu uma carta anônima em termos jocosos: "Abre o olho, rapaz!". Pela primeira vez, caiu em si. Começou a observar a mulher. Mãe displicente, vivia em tudo que era festa, exibindo seus vestidos, seus decotes, seus belos ombros nus. Um dia chamou a mulher: "Você precisa selecionar mais suas amizades...". Clara, limando as unhas, respondeu: "Vê se não dá palpite, sim? Sou dona do meu nariz!". Desconcertado, quis insistir. Ela, porém, gritou: "Você nunca me ligou! Nunca me deu a menor pelota!". Aderbal teve que dar a mão á palmatória. — Bem. Eu não me meto mais. Mas quero lhe dizer uma coisa: nunca se esqueça que você tem de prestar contas á sua filha. Foi malcriada: — Ora não amola! Foi esta a última vez. Nunca mais discutiram. Aderbal passou a ser apenas uma testemunha silenciosa e voluntariamente cega da vida frívola da mulher. Tinha uma idéia fixa, que era a filha. Uma vez na vida, outra na morte, dizia á esposa: "Nunca se esqueça que você é mãe". E era só. Agora que Mirna completava quinze anos, D. Margarida invadia-lhe a casa. Discutiram os dois. A velha partia do seguinte principio:

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Clara era infiel e, portanto, o casal devia separar-se e, depois, desquitar-se. Desesperado, Aderbal teve uma espécie de uivo: "E minha filha?". D. Margarida explodiu: "Ora pílulas!". Ele foi categórico: — Olhe, minha mãe: eu não existo. Compreendeu? Quem existe é a minha filha. Não darei esse desgosto á minha filha, nunca! A velha usou todos os seus argumentos, mas em vão. Aderbal dava uma resposta única e obtusa: "Pode ter amante, pode ter o diabo, mas é mãe de minha filha. E se minha filha gosta dessa mulher ela é sagrada para mim, pronto, acabou-se!". Por fim, já sem paciência, D. Margarida saiu, apoiada na sua bengala de doente. E, da porta, gritou: — Você precisa ter mais vergonha nessa cara!

Pecadora
Uns quarenta minutos depois, Aderbal foi falar com Mirna: "Vem cá, minha filha: você gosta muito de sua mãezinha?". Ela pareceu maravilhada com a pergunta: "Você duvida, papai?". Pigarreou, disfarçando: "Brincadeira minha". Sentada no colo paterno, a pequena, que era parecida com Clara, suspirou. "Gosto muito de mamãe e gosto muito de você". Atormentado, ele deixou passar uns dois dias. No terceiro dia, discutiu com a mulher. E definiu a situação: — Eu sei que você não gosta de mim. Mas respeite, ao menos, sua filha. A discussão podia ter tido um tom digno. Mas Clara estava tão saturada daquele homem que não resistiu. A voz do marido, o gesto, a roupa, as mãos, a pele — tudo a desgostava. Com dezesseis anos de casada, percebia que num casal, pior do que o ódio, é a falta de amor Perdeu a cabeça, disse o que devia e o que não devia. Aderbal quis conservar a serenidade: "Minha filha não pode saber de nada". Então, Clara teve um acinte desnecessário, uma crueldade inútil; interpelava-o: "Você fala de sua filha. E você? Afinal, o marido é você!". Muito pálido, Aderbal emudeceu. Ela continuou, agravando a humilhação do marido: "Ou você vai dizer que não sabe?". Na sua cólera contida, quis sair do quarto. Mas já Clara se colocou na sua frente, resoluta, barrando-lhe o caminho Voltara, há pouco, de uma festa. Estava de vestido de baile, num decote muito ousado, os ombros morenos e nus, perfumadíssima. E, então, com as duas mãos nos quadris, fez a desfeita: — Não vá saindo, não. — E perguntava: — Você não me provocou? Agora agüente! E ele, em voz baixa: — Fale baixo. Sua filha pode ouvir! Sem querer, Clara obedeceu. Falou baixo, mas, pela primeira vez, disse tudo. Assombrado, diante dessa maldade que irrompia, sem pretexto, gratuita e terrível — ele se limitava: "Por que você diz isso? Por quê?".

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Queria interrompê-la: "Cale-se! Cale-se! Eu não lhe perguntei nada! Eu não quero saber!". Mas a própria Clara não se continha mais: — Você conhece fulano? Seu amigo, deve favores a você, o diabo. Pois ele foi o primeiro! — Fulano? Mentira!... E ela: — Quero que Deus me cegue se minto! Sabe quem foi o segundo? Sicrano! Queres outro? Beltrano. Ao todo, dezessete! Compreendeu? Dezessete! Então, desfigurado, ele disse: — Só não te mato agora mesmo porque minha filha gosta de ti! Disse isso e saiu do quarto.

A filha
Dez minutos depois, de bruços no divã, ele chorava, no seu ódio impotente. E, súbito, sente que uma mão pousa na sua cabeça. Vira-se, rápido. Era a filha que, nas chinelinhas de arminho, no quimono rosa e bordado, descera de mansinho. Ajoelhou-se a seu lado. Desconcertado, passou as costas das mãos, limpando as lágrimas. Então, meiga como nunca, solidária como nunca Mirna disse: "Eu ouvi tudo. Sei de tudo". Lenta e grave, continuou: — Eu não gosto de minha mãe. Deixei de gostar de minha mãe. Ele pareceu meditar, como se procurasse o sentido misterioso dessas palavras. Levantou-se, então. Foi a um móvel e apanhou o revólver na gaveta. Subiu, sem pressa. Diante do espelho, Clara espremia espinhas. Ao ver o marido, pôs-se a rir. Boa, normal, afável com os demais, só era cruel com aquele homem que deixara de amar. Seu riso esganiçado e terrível foi outra maldade desnecessária. Então, Aderbal aproximou-se. Atirou duas vezes no meio do decote.

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Nelson Rodrigues O defunto
Entrou no quarto, deitou-se na cama, vestido, de paletó, colarinho, gravata, sapatos. Uniu bem os pés; entrelaçou as mãos, na altura do peito; e assim ficou. Pouco depois, a mulher surgiu na porta. Durante alguns momentos esteve imóvel e muda, numa contemplação maravilhada. Acabou murmurando: — O jantar está na mesa. Ele, sem se mexer, respondeu: — Pela ultima vez: morri. Estou morto. A outra não insistiu. Deixou o quarto, foi dizer à empregada que tirasse a mesa e que não faziam mais as refeições em casa. Em seguida, voltou para o quarto e lá ficou. Apanhou um rosário, sentou-se perto da cama: aceitava a morte do marido como tal; e foi como viúva que rezou. Depois do que ela própria fazia nos lotações, nada mais a espantava. Passou a noite fazendo quarto. No dia seguinte, a mesma cena. E só saiu, à tarde, para sua escapada delirante, de lotação. Regressou horas depois. Retomou o rosário, sentou-se e continuou o velório do marido vivo.

Nelson Rodrigues O desgraçado
Não mentira ao sogro. Sua vida conjugal era, de fato, de uma melancolia tremenda. Descontado o período da lua-de-mel, que ele estimava em oito dias, nunca mais fora bem tratado. Sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente de visitas. E, certa vez, durante um jantar com outras pessoas, ela o fulmina, com a seguinte observação, em voz altíssima. - Vê se pára de mastigar a dentadura, sim? Houve um constrangimento universal. O pobre do marido, assim desfeiteado, só faltou atirar-se pela janela mais próxima. Após três anos de experiência matrimonial, eleja não esperava mais nada da mulher, senão outros desacatos. E só não compreendia que Jupira, amabilíssima com todo mundo, fizesse uma excepção para ele, que era, justamente, o marido. Depois de Ter deixado o sogro, voltou para casa desesperado. Chega, abre a porta, sobe a escada e quando entra no quarto recebe a intimação: - Não acende a luz! Obedeceu. Tirou a roupa no escuro e, depois, andou caçando o pijama, como um cego. E quando, afinal, pôde deitar-se, fez uma reflexão melancólica: há dez meses ou mesmo um ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois. O máximo que ele, intimidado, se permitia, era roçar com os lábios a face da esposa. Se queria ser carinhoso demais, ela o desiludia: "Na boca não! Não quero!". Outra coisa que o amargurava era o seguinte: a negligência da mulher no lar. Não se enfeitava, não se perfumava. Deitado ao seu lado, ele pensava agora, lembrando-se da teoria do sogro: - "Será que a esposa honesta também precisa cheirar mal?".

Nelson Rodrigues O idílio
Foi um namoro tranqüilo, macio, sem impaciências, arrebatamentos. Sob a inspiração paterna, ele planificou o romance, de alto a baixo, sem descurar de nenhum detalhe. Antes de mais nada, houve o seguinte acordo: - Eu não toco em ti até o dia do casamento. Edila pergunta: - E nem me beija? Enfiou as duas mãos nos bolsos: - Nem te beijo. OK? Encarou-o, serena: - OK. Dir-se-ia que este assentimento o surpreendeu. Insinua: - Ou será que você vai sentir falta? - De quê? E Salviano, lambendo os beiços: - Digo falta de beijos e, enfim, de carinho. Sorriu, segura de si: - Não. Estou cem por cento com teu pai. Acho que teu pai está com a razão. Salviano não sabe o que dizer. Edila continua, com o seu jeito tranqüilo: - Sabe que essas coisas não me interessam muito? Eu acho que não sou como as outras. Sou diferente. Vejo minhas amigas dizerem que beijo é isso, aquilo e aquilo outro. Fico boba! E te digo mais: eu tenho, até, uma certa repugnância. Olha como eu estou arrepiada, olha, só de falar nesse assunto!

Nelson Rodrigues O inocente
Pôde, assim; desviar da noiva o seu ódio De manhã, passou pela casa de Edila. Com apavorante serenidade, em voz baixa, pediu o nome do culpado. Diante dele, a garota torcia e destorcia as mãos: "Não digo! Tudo, menos isso!". Ele sugeria, desesperado: "Foi o Pimenta?". O Pimenta era o antigo namorado de Edila. Ela dizia: "Não sei, não sei!". Salviano saiu dali certo. Procurou o outro, que conhecia de nome e de vista. Antes que o Pimenta pudesse esboçar um gesto, matou-o, com três tiros, à queima-roupa. E fez mais. Vendo um homem, um semelhante, agonizar aos seus pés, com um olhar de espanto intolerável, ele virou a arma contra si mesmo e estourou os miolos. Mais tarde, desembaraçado o corpo, foi instalada a câmara-ardente na casa paterna. Alta madrugada, havia, na sala, três ou quatro pessoas, além da noiva e de seu Notário. Em dado momento, o velho bate no ombro de Edila e a chama para o corredor. E, lá, ele, sem uma palavra, aperta entre as mãos o rosto da pequena e a beija na boca, com loucura, gana. Quando se desprendem, seu Notário, respirando forte, baixa a voz: — Foi melhor assim. Ninguém desconfia. Ótimo. Voltaram para a sala e continuaram o velório.

Nelson Rodrigues O ladrão
Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!" Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: "Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido de noiva!". Para quê? Ela se insultou: - Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim! Chamaram até a policia. O mistério era a verdade, alucinante: quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda - enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero ser enterrado assim".

Nelson Rodrigues O Pediatra
Saiu do telefone e anunciou para todo o escritório: - Topou! Topou! Foi envolvido, cercado por três ou quatro companheiros. O Meireles cutuca: - Batata? Menezes abre o colarinho: - "Batatíssima!". Outro insiste: - Vale? Justifica? Fez um escândalo: - Se vale? Se justifica? Ó rapaz! É a melhor mulher do Rio de Janeiro! Casada e te digo mais: séria pra chuchu! Alguém insinuou: - "Séria e trai o marido?". Então, o Menezes improvisou um comício em defesa da bem-amada: - Rapaz! Gosta de mim, entende? De mais a mais, escuta: o marido é uma fera! O marido é uma besta! Ao lado, o Meireles, impressionado, rosna: - Você dá sorte com mulher! Como você nunca vi! - E repetia, ralado de inveja: - Você tem uma estrela miserável!

Nelson Rodrigues O velho
Desde menino, Salviano se habituara a prestar contas quase diárias ao pai, de suas idéias, sentimentos e atos. O velho, que se chamava Notário, ouvia e dava os conselhos que cada caso comportava. Durante todo o namoro com Edila, seu Notário esteve, sempre, a par das reações do filho e da futura nora. Salviano, ao terminar as confidências, queria saber: "Que tal, papai?". Seu Notário apanhava um cigarro, acendia-o e dava seu parecer, com uma clarividência que intimidava o rapaz: — Já vi que essa menina tem o temperamento de uma esposa cem por cento. A esposa deve ser, mal comparando, e sob certos aspectos, um paralelepípedo. Essas mulheres que dão muita importância à matéria não devem casar. A esposa, quanto mais fria, mais acomodada, melhor! Salviano retransmitia, tanto quanto possível, para a namorada, as reflexões paternas. Edila suspirava: "Teu pai é uma simpatia!". De vez em quando, o rapaz queria esquecer as lições que recebia em casa. Com uma salivação intensa, o olhar rutilante, tentava enlaçar a pequena. Edila, porém, era irredutível; imobilizava-o: — Quieto! Ele recuava: — Tens razão!

Nelson Rodrigues O vestido de noiva
Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espectacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana esse modelo?" A reacção do rapaz foi surpreendente. Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura: - Que beleza, meu Deus! Que maravilha! Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: "Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimónia, brincou: - Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!

Nelson Rodrigues Os Noivos
Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou: - Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo. Ele obedeceu: - Pronto, papai. O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo: - Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria? Pra casar? Vermelho, respondeu: - Minhas intenções são boas. O outro esfrega as mãos. - Ótimo! Edila é uma moça direita, moça de família. E o que eu não quero para minha filha, não desejo para a filha dos outros. Agora, meu filho, vou te dar um conselho. Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o pai uma espécie de Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se; põe a mão no ombro do filho: - O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? - E baixa a voz: - É não tocar na pequena, não tomar certas liberdades, percebeu? Assombro de Salviano: "Mas, como? Liberdades, como?". E o pai: - Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e a direito, o que é que acontece? Você enjoa, meu filho. Batata: enjoa! E quando chega o casamento, nem a mulher oferece novidades para o homem, nem o homem para a mulher. A lua-de-mel vai-se por água abaixo. Compreende? Abismado de tanta sabedoria, admitiu: - Compreendi.

Nelson Rodrigues Problema matrimonial
Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou: - Está muito bem assim! A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce. Mas a mãe chorou, replicou: "Não, meu filho. seu tio tem razão. Você precisa casar, sim". Atónito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, de pergunta: - Casar pra quê? Por quê? E vocês? - Interpela as irmãs: - Por que vocês não se casaram? A resposta foi vaga, insatisfatória: - Mulher é outra coisa. Diferente.

Nelson Rodrigues Sofrimento
A princípio, Filadelfo conjecturou: "É hoje só". No dia seguinte, porém, houve a mesma coisa. Ele coçava a cabeça: "Aqui há dente de coelho!". Coincidiu que, por essa ocasião, os seus sogros aparecessem para jantar. Dr. Magarão, enquanto a mulher conversava com a filha, levou o genro para a janela: "Como é? Como vai o negócio aqui?" Filadelfo exclama: - Estou besta! Estou com a minha cara no chão! O velho empina a barriga de ópera-bufa: - Por quê? E o genro: - Tivemos aquela conversa. Pois bem. Jupira mudou. Está uma seda; e me trata que só o senhor vendo! Ao lado, mascando o charuto apagado, o velho balança a cabeça: - Óptimo! - O negócio está tão bom, tão gostoso, que eu já começo a desconfiar! O sogro põe-lhe as duas mãos nos ombros: - Queres um conselho? De mãe pra filho? Não desconfia de nada, rapaz. Te custa ser cego? Olha! O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido não deve saber nunca!

Nelson Rodrigues Teoria
Entram num pequeno bar, ocupam uma mesa discreta. Enquanto o garçon vai e vem, com uma cerveja e dois copos, dr. Magarão comenta: - Você sabe que eu sou casado, claro. Muito bem. E, além da minha experiência, vejo a dos outros. Descobri que toda mulher honesta é assim mesmo. Espanto de Filadelfo: - Assim como? O gordo continua: - Como minha filha. Sem tirar, nem pôr. Você, meu caro, desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste azeda e neurasténica. Filadelfo recua na cadeira: - Tem dó! Essa não! - E repetia, de olhos esbugalhados, lambendo a espuma da cerveja: - Essa, não! Mas o sogro insistiu. Pergunta: - Sabe qual foi a esposa mais amável que eu já vi na minha vida? Sabe? Foi uma que traia o marido com a metade do Rio de Janeiro, inclusive comigo! Espalmou a mão no próprio peito, numa feroz satisfação retrospectiva: Também comigo! E tratava o marido assim, na palma da mão! Uma hora depois, saiam os dois do pequeno bar. Dr. Magarão, com sua barriga de ópera-bufa e bêbado, trovejava: - Você deve se dar por muito satisfeito! Deve lamber os dedos! Dar graças a Deus! O genro, com as pernas bambas, o olho injectado, resmunga: - Vou tratar disso!

Um dia sem assaltos
Imaginemos que um milionário paulista, não tendo mais o que fazer, resolva contratar um gramático. Seria tempo perdido. Podia anunciar nos classificados: — "PRECISA-SE de um gramático etc. etc.". Não encontraria um. No Brasil de hoje, é mais fácil achar uma girafa do que um gramático. E, no entanto, vejam vocês: — houve um tempo em que o brasileiro gostava de escrever certo e de falar certo. Mas os usos, o gosto, os valores mudam, obviamente, de geração para geração. Lembro-me de um jogador de futebol. Um locutor volante, antes do jogo, atropelou um craque. E este disse: — "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor, esfuziante, resolveu prolongar a entrevista. Perguntou: — "Vocês vão jogar o quatro-três-três ou o quatro-dois-quatro?". Há uma pausa aterrada. Bem se via que o jogador estava preparado para uma pergunta e não para duas. Pensa, pensa e, súbito, baixa-lhe a inspiração. Responde: — "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor exulta: — "Acabaram de ouvir" etc. etc. Eis o que eu queria dizer: — nunca se falou tão errado, nem se escreveu tão errado. Mas, coisa curiosa. Talvez por isso mesmo a língua brasileira ganhou em plasticidade, sim, lucramos em música verbal. E se, por acaso, ainda existir algum neto retardatário e obsoleto dos antigos gramáticos, será ele o primeiro a fingir-se analfabeto. Há, porém, uma figura que fala corretissimamente, sem os nossos freqüentes deslizes gramaticais: — o ladrão de banco. Assalta com a metralhadora e com a gramática. Nunca me esqueço do filme Dillinger, que passou, no Rio, há uns dez anos. Era a biografia do famoso bandido. A estréia foi, se não me engano, numa segunda-feira, e no Rex. Entre parênteses, o Rex é um cinema que já nasceu velho. No dia de sua inauguração, parecia contemporâneo da primeira batalha do Marne e do fuzilamento de Mata-Hari. E outra singularidade: — desde o primeiro dia de vida, o Rex teve pulgas voracíssimas. Vi o anúncio e decidi: — "Esse, eu não perco". Filme de gangster é, naturalmente, uma preferência comprometedora. E, portanto, escolhi a última sessão, que seria a mais vazia. Às dez para as dez, estava na bilheteria. Imaginei que só eu, entre 5 milhões de cariocas, estaria interessado em Dillinger. Mas chego lá e caio das nuvens. Cinema entupido. E não se pense que eram marginais, desclassificados de ambos os sexos, que estavam lá. Vi grã-finos, intelectuais, ministros, banqueiros e, até, um pastor protestante. Por que o brasileiro tem essa fascinação pelo filme de gangster? Era a pergunta que eu me fazia, sem lhe achar resposta. E observei que todos,inclusive eu, tínhamos vergonha de estar ali. Mas vimos o filme. Como se sabe, Dillinger foi um dos mais espantosos ladrões de banco de sua época. Mas uma das passagens que gelaram a platéia de maravilhado horror foi a seguinte: — o gangster estava na casa de dois velhinhos. Marido e mulher teriam seus oitenta anos. Daí para mais. E, súbito, o bandido vê o velhinho cochichando no telefone. Desconfiou. A simples suspeita bastou. Assassinou o casal, a machadadas. Houve, no cinema, um silêncio de rebentar os tímpanos. Os assaltos aos bancos deliciavam a platéia. Quando acabou, ouvi uma grã-fina sussurrar para outra grã-fina: — "Que homem! Que homem!". A outra respondeu, baixinho também: — "Com esse, eu me casava!". A sensação que tive foi a de que éramos uma platéia de ladrões de banco e assassinos de velhinhos. O que eu queria dizer é que tenho pensado muito no filme do bandido. Pela primeira vez no Brasil assalta-se banco e repito: — assaltar bancos tornou-se uma rotina da cidade. O leitor de jornal sente-se frustradíssimo quando passa um dia sem assalto. Ainda ontem ou anteontem, dizia um meu amigo, quase irritado: — "Hoje ninguém assaltou". E o pior é que ninguém se espanta. Ou, na melhor das hipóteses, há um espanto sem terror. O fato adquire uma naturalidade cínica. Todos parecem raciocinar nos seguintes termos: — se podemos depositar nos bancos, abrir contas, fazer cheques, também podemos assaltá-los. No cinema e, pois, na ficção, o mesmo assalto tem uma outra e apaixonante dimensão. O incidente passa sem nenhum apelo emocional. E reparem como não há nem um relativo susto. Senhoras gordas continuam levando suas contas da luz e do telefone; os depositantes comparecem; os caixas pagam e recebem; o gerente boceja na sua mesa ou discute futebol. Ninguém pensa que, a qualquer momento, pode levar uma rajada de metralhadora. Se me perguntassem por que não há horror, eu diria: — o horror exige retórica. Nos bons tempos, havia o conselheiro Rui Barbosa. E nada acontecia, no Brasil e no mundo, que não tivesse o seu orador. Houve o desastre da "barca Sétima". Morreram, digamos, cem crianças. Não tenho nenhuma certeza numérica. Mas, digamos: — cem. O conselheiro Rui Barbosa ocupou a tribuna. E o que fazia chorar, mais do que as mortes, o luto das famílias, os enterros, era a retórica do conselheiro. Hoje, não há um brasileiro, vivo ou morto, que não use, com efusão e abundância, o erro de português. Nos bons tempos, todo mundo falava certo e escrevia certo. Era a eloqüência com gramática. Rui foi, do berço ao túmulo, o gramático irremediável. Poderei dizer, sem exagero, que a sua glória é, sobretudo, gramatical. Nada mais correto do que sua frase. Pois bem. Repito: — cada acontecimento íntimo ou coletivo, doméstico ou político, tinha o seu Rui. Fosse batizado, noivado, enterro, aniversário, a retórica era fatal. Hoje, falta um Rui, ainda que modesto, ainda que menor, para estimular o nosso espanto, o nosso horror, a nossa indignação.

O beijo no asfalto

Estilo Tragédia contemporânea contrastando poesia e vulgaridade. Conserva-se fiel ao expressionismo freudiano e realismo, o autor vem de encontro a preconceitos e inseguranças bem como à falsidade, ao juízo fundado na aparência e a condições unânimes. Enredo Arandir testemunha um atropelamento e ao socorrer a vítima, dálhe um beijo na boca a pedido do agonizante. É imediatamente acusado de homossexualismo pela imprensa e pela polícia. Ridicularizado perante a opinião pública os amigos e desamparado pela esposa (Selminha) vem a refugiar-se em uma pensão É visitado pelo sogro (Aprígio) que declara-lhe seu ódio, revelando-se apaixonado por ele e com ciúmes pelo fato de Arandir ter-se casado com Selminha e por vir a beijar outro . Com dos tiros Arandir é morto por Aprígio. Fragmento "(...) Em toda a minha vida, a única coisa que salva é o beijo no asfalto (...) É lindo! é lindo, eles não entendem. Lindo beijar quem está morrendo (grita). Eu não me arrependo! Eu não me arrependo." Cale-se. Preste Atenção "O morto é o grande personagem invisível, Arandir ao beijar o agonizante, beijou a morte na boca".

Lua de Mel

Seguindo a sugestão do sogro, de não quis investigar as causas da mudança da esposa. Tratou de extrair o máximo possível da situação, tanto mais que passara a viver num regime de lua-de-mel. Dias depois, porém, recebe uma minuciosíssima carta anónima, com dados, nomes, endereços, duma imensa verosimilhança. O missivista desconhecido começava assim: "Tua mulher e o Cunha...". O Cunha era, talvez, o seu maior amigo e jantava três vezes por semana ou, no mínimo, duas, com o casal. A carta anónima dava até o número do edifício e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes se encontravam. Filadelfo lê aquilo, relê e rasga, em mil pedacinhos, o papel indecoroso. Pensa no Cunha, que é solteiro, simpático, quase bonito e tem bons dentes. Uma conclusão se impõe: sua felicidade conjugal, na última fase, é feita á base do Cunha. Filadelfo continuou sua vida, sem se dar por achado, tanto mais que Jupira revivia, agora, os momentos áureos da lua-de-mel. Certa vez jantavam os três, quando cai o guardanapo de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente, debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por cima dos outros. Passa-se o tempo e Filadelfo recebe a noticia: o Cunha ficara noivo! Vai para casa, preocupadíssimo. E, lá, encontra a mulher de bruços, na cama, aos soluços. Num desespero obtuso, ela diz e repete: - Eu quero morrer! Eu quero morrer! Filadelfo olhou só: não fez nenhum comentário. Vai numa gaveta, apanha o revólver e sai á procura do outro. Quando o encontra, cria o dilema: - Ou você desmancha esse noivado ou dou-lhe um tiro na boca, seu cachorro! No dia seguinte, o apavorado Cunha escreve uma carta ao futuro sogro, dando o dito por não dito. Á noite, comparecia, escabreado, para jantar com o casal. E, então, á mesa, Filadelfo vira-se para o amigo e decide: - Você, agora, vem jantar aqui todas as noites! Quando o Cunha saiu, passada a meia-noite, Jupira atira-se nos braços do marido: - Você é um amor!

Misericórdia

Foi uma conversa que se alongou por toda uma noite. No seu desespero inicial, ele berrava: "Cínica! Cínica!". E soluçava: "Nunca teve um beijo meu, que sou seu noivo, e vai ter o filho do outro!". O pai, porém, conseguiu, após poucos, aplacá-lo. Sustentou a tese de que todos nós, afinal de contas, somos falíveis e, particularmente, as mulheres: "Elas são de vidro", afirmava. Alta madrugada, o pobre-diabo pergunta: "E eu? Devo fazer o quê?". Justiça se lhe faça - o velho foi magnífico: "Perdoar. Perdoa, meu filho, perdoa!". Quis protestar: "Ela merece um tiro!". Mais que depressa, seu Notário atalha: — Ela, não, nunca! Ele, sim! Ele merece! — Quem? Baixa a voz: "O pai da criança! Esse filho não caiu do céu, de pára-quedas! Há um culpado". Pausa. os dois se entreolham. Seu Notário segura o filho pelos dois braços: — Antes de ti, Edila teve um namorado. Deve ter sido ele. Se fosse comigo, eu matava o cara que... Ergue-se, transfigurado, quase eufórico: "Tem razão, meu pai! O senhor sempre tem razão!".
Mudança
Um mês depois, ele chega em casa, do trabalho, e acontece uma coisa sem precedentes: a mulher, pintada, perfumada, se atira nos seus braços. Foi uma surpresa tão violenta que Filadelfo perde o equilíbrio e quase cai. Em seguida, ela aperta entre as mãos o seu rosto e o beija na boca, num arrebatamento de namorada, de noiva ou de esposa em lua-de-mel. Ele apanha o jornal, que deixara cair. Maravilhado, pergunta: - Mas que é isso? Que foi que houve? Jupira responde com outra pergunta: - Não gostou? Ele senta confuso. - Gostar, gostei, mas... - Ri: - Você não é assim, você não me beija nunca. Jupira tem um gesto de uma petulância que o delícia: vem sentar-se no seu colo, encosta o rosto no dele. Filadelfo é acariciado. Acaba perguntando: - Explica este mistério. Aconteceu alguma coisa. Aconteceu? Ela suspira: - Mudei ora!

Novo parto
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada ás pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: "Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário: - Meus dentes estão doendo! E, de fato, o grande termómetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura. A parteira duvidou, mas, dai a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha. Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão: - Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!

O amor imortal
Há três ou quatro semanas que o Menezes falava num novo amor imortal. Contava, para os companheiros embasbacados: - "Mulher de um pediatra, mas olha: - um colosso! ". Queriam saber: - "Topa ou não topa?". Esfregava as mãos, radiante: - Estou dando em cima, salivando. Está indo. Todas as manhãs, quando o Menezes pisava no escritório, os companheiros o recebiam com a pergunta: - "E a cara?". Tirando o paletó, feliz da vida, respondia: - Está quase. Ontem, falamos no telefone quatro horas! Os colegas pasmavam para esse desperdício: - "Isso não é mais cantada, é ...E o vento levou". Meireles sustentava o princípio que nem a Ava Gardner, nem a Cleópatra justificam quatro horas de telefone. Menezes protestava: - Essa vale! Vale, sim senhor! Perfeitamente, vale! E, além disso, nunca fez isso! É de uma fidelidade mórbida! Compreendeu? Doentia! E ele, que tinha filhos naturais em vários bairros do Rio de Janeiro, abandonara todos os outros casos e dava plena e total exclusividade à esposa do pediatra. Abria o coração no escritório: - Sempre tive a tara da mulher séria! Só acho graça em mulher séria! Finalmente, após quarenta e cinco dias de telefonemas desvairados, eis que a moça capitula. Toda a firma exulta. E o Menezes, passando o lenço no suor da testa, admitia: - "Custou, puxa vida! Nunca uma mulher me resistiu tanto!". E, súbito, o Menezes bate na testa: - É mesmo! Está faltando um detalhe! O apartamento! Agarra o Meireles pelo braço: - "Tu emprestas o teu?". O outro tem um repelão pânico: - Você é besta, rapaz! Minha mãe mora lá! Sossega o periquito! Mas o Menezes era teimoso. Argumenta: - Escuta, escuta! Deixa eu falar. A moça é séria. Séria pra burro. Nunca vi tanta virtude na minha vida. E eu não posso levar para uma baiúca. Tem que ser,olha: - apartamento residencial e familiar. É um favor de mãe pra filho caçula. O outro reagia: - "E minha mãe? Mora lá, rapaz!". Durante umas duas horas, pediu por tudo: - Só essa vez. Faz o seguinte: - manda a tua mãe dar uma volta. Eu passo lá duas horas no máximo! Tanto insistiu que, finalmente, o amigo bufa: - Vá lá! Mas escuta: - pela primeira e última vez! Aperta a mão do companheiro: - És uma mãe!

Frases
- O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade. - Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bemsucedido não interessa a ninguém. - Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de "ilustre", de "insigne", de "formidável", qualquer borra-botas. - A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem. - O brasileiro não está preparado para ser "o maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade. - Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar. - Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível. - O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas. - Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria. - Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza. - O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.

- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. - Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — "Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!". Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão! - Em nosso século, o "grande homem" pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta. - O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda. - Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma. - Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca. - Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.

O beijo
Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse sobre as possibilidades ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu, com muito empenho, sobre um ponto que considerava importantíssimo: - Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca! A garota, espantada, protestou - Ora, mamãe! E a velha: - Ora o quê? É isso mesmo! Sem beijo não há nada, está ,.tudo muito bem. OK. E com beijo pode acontecer o diabo. Você é muito menina e talvez não perceba certas coisas. Mas pode ficar certa: tudo que acontece de ruim, entre um homem e uma mulher, começa num beijo!

O canalha

Quando soube que a noiva tinha viajado de lotação com o Dudu, sentada no mesmo banco, pôs as mãos na cabeça: - Com o Dudu? E ela: - Com o Dudu, sim. As duas mãos enfiadas nos bolsos, andando de um lado para outro; ele estaca, finalmente, diante da pequena: - Olha, Cleonice, vou te pedir um favor de mãe pra filho. Pode ser? - Claro. Puxa um cigarro: - É o seguinte: de hoje em diante, ouviu?, de hoje em diante, tu vais negar o cumprimento ao Dudu. Admirou-se: - Por que, meu anjo? Ele explicou - Porque o Dudu é um cínico, um crápula, um canalha abjeto. Um sujeito que não respeita nem poste e que é capaz até de dar em cima de uma cunhada. O simples cumprimento de Dudu basta para contaminar uma mulher. Percebeste? - Percebi. Ainda excitado, ele enxuga com o lenço o suor da testa: - Pois é. Passou. Mas a verdade é que Cleonice ficou impressionadíssima. Dava-se com o Dudu, sem intimidade, mas cordialmente. Dançara com ele umas duas ou três vezes. Mas como o Dudu fosse fisicamente simpático e educadíssimo, Cleonice guardara dos seus contatos acidentais uma boa impressão. Caiu das nuvens ao saber que de era capaz de "dar em cima de uma cunhada" Teria, porém, esquecido. Voltando á carga, sentado com a noiva num banco de jardim público, ele começa: - Meu anjo, tu sabes que eu não tenho ciúmes. Não sabes? - Sei. Pigarreia: - Só tenho ciúmes de uma pessoa o Dudu. E nunca te esqueças: é um canalha, talvez o único canalha vivo do Brasil. Todo mundo tem defeitos e qualidades. Mas o Dudu só tem defeitos. Inexperiente da vida e dos homens, ela fazia espanto: - Mas isso é verdade? Batata? Exagerou: Batatíssima! Quero ser mico de circo se estou mentindo! - E repetia, num furor terrível e inofensivo: - Indigno de entrar numa casa de família!

Obsessão
Então, sem querer, sem sentir, Lima foi fazendo do Dudu o grande e absorvente personagem de suas conversas. Argumentava: - Você é muito boba, muito inocente, nunca teve outro namorado senão eu. Queres um exemplo? sou teu noivo, vou casar contigo. Muito bem. O que é que houve entre nós dois? Uns beijinhos, só. É ou não é? Impressionada, admitiu: - Lógico! Lima continua: - Figuremos a seguinte hipótese: que, em vez de mim, fosse teu namorado o Dudu Tu pensas que de ia te respeitar como eu te respeito? Duvido! Duvido! Dudu não tem sentimento de família, de nada! É uma besta-fera, uma hiena, um chacal! Crispando-se, Cleonice suspira: "Parece impossível que existam homens assim". Lima prossegue: "Vou te dizer uma coisa mais: o Dudu olha para uma mulher como se a despisse mentalmente!"

A festa

Dias depois, Cleonice está conversando com umas coleguinhas quando alguém fala do Dudu. Então, ela olha para os lados e baixa a voz: "Ouvi dizer que o Dudu deu em cima de uma cunhada". Uma das presentes, que conhecia o rapaz, a família do rapaz, protesta: "Mas o Dudu nem tem cunhada!''. Mais tarde a espantadíssima Cleonice interpela o Lima. Ele não se dá por achado: - Eu não disse que o Dudu deu em cima de uma cunhada. Eu disse que "daria" caso tivesse. Você entendeu mal. Mais alguns dias e os dois, vão a uma festa, em casa de família. Entram e têm, imediatamente, o choque: Dudu estava lá! Junto de uma janela, com o seu bonito perfil, fumando de piteira, pálido e fatal, atraia todas as atenções. Lima aperta o braço da noiva. Diz, entredentes: "Vamos embora". Ela, espantada, pergunta: "Por quê?". O noivo a arrasta: - O Dudu está ai. E não convém, ouviu? Não convém! Imagina se ele tem o atrevimento de te tirar para dançar Deus me livre!

O medo

Na volta da festa, Cleonice faz, pela primeira vez, um comentário irritado: - Fala menos nesse Dudu! Sabe que eu só penso nele? Te digo mais: tenho medo! Lima estaca: "Medo de que e por que, ora essa?". Ela parece confusa: - Essas coisas impressionam uma mulher. - E repete o apelo: - Não fala mais nesse cara' É um favor que te peço! Ele obstinou-se: "Falo, sim, como não? Você precisa olhar o Dudu como um verme!". Cleonice suspirou. - Você sabe o que faz!



Ódio

Corria o tempo. Todos os dias, o Lima aparecia com uma novidade: "Vi aquela besta com outra!". E se havia uma coisa que doesse nele, como uma ofensa pessoal, era a escandalosa sorte do "canalha" com as outras mulheres. Nos seus desabafos com a noiva, Lima exagerava: "Cheio de pequenas! Tem namoradas em todos os bairros!". Um dia, explodiu: - Vocês, mulheres, parece que gostam dos canalhas! Por exemplo: o meu caso. Sem falsa modéstia, sou um sujeito decente, respeitador e outros bichos. Pois bem. Não arranjava pequena nenhuma. Até hoje não compreendo como você gostou de mim, fez fé comigo e me preferiu ao Dudu. - Pausa e baixa a voz, na confissão envergonhada: - Porque o Dudu me tirou todas as outras namoradas, uma por uma. Era essa, com efeito, a origem do seu ódio por Dudu, do despeito que o envenenava.


As bodas

Chega o dia do casamento. Poucos minutos antes da cerimônia civil, Lima, transfigurado, ainda diz ao ouvido da noiva: "O Dudu roubou todas as minhas pequenas, menos você!". Pois bem. Casam-se no civil e, mais tarde, no religioso. Quase à meia-noite, estão os dois sozinhos, face a face, no apartamento que seria a nova residência. Ele, nervosíssimo, baixa a voz e pede: "Um beijo!". Ela, porém, foge com o rosto: "Não!". Lima não entende. Cleonice continua: - Falaste tanto e tão mal do Dudu que eu me apaixonei por ele. Eu não trairei o homem que eu amo nem com o meu marido. Lima compreendeu que a perdera. Sem uma palavra deixa o quarto nupcial. De pijama e chinelos veio para a porta da rua. Senta-se no meio-fio e põe-se a chorar.

O decote

Era uma mãe enérgica, viril, à antiga. Diabética, asmática, com sessenta anos nas costas, apanhou um táxi na Tijuca e deu o endereço do filho, em Copacabana. Chegou de surpresa. A nora, que não gostava da sogra perspicaz e autoritária, torceu o nariz. Já o filho, que a respeitava acima de tudo e de todos, precipitou-se, de braços abertos, trêmulo de comoção: — Oh, que milagre! Deu-lhe o braço. Há dois anos, com efeito, que D. Margarida não entrava naquela casa. Indispôs-se com a nora, cuja beleza a irritava, e cortou o mal pela raiz: "Não ponho mais os pés aqui, nunca mais". Clara deu graças a Deus. Aquela sogra, sem papas na língua, a exasperava. E Aderbal, que era um bom filho e melhor marido, limitou-se a uma exclamação vaga e pusilânime: "Mulher é um caso sério!". Foi só. Eis que, dois anos depois, abandonando sua rancorosa intransigência, D. Margarida punha os pés naquela casa. Foi um duplo sacrifício, fisico e moral, que ela se impôs, heroicamente. Trancou-se com o filho no gabinete. Perguntou: — Sabe por que eu vim aqui? E de, impressionado: — Por quê? D. Margarida respirou fundo: — Vim lhe perguntar o seguinte: você é cego ou perdeu a vergonha? Não esperava por esse ataque frontal. Ergueu-se, desconcertado: "Mas como?". Apesar dos seus achaques, que faziam de cada movimento uma dor, D. Margarida pôs-se de pé também. Prosseguiu, implacável: — sua mulher anda fazendo os piores papéis. Ou você ignora? — E, já com os olhos turvos, uma vontade doida de chorar, interpelava-o: — Você é ou não é homem? Foi sóbrio: — Sou pai.


O pai

Há quinze anos atrás, os dois se casaram, no civil e religioso, e, como todo mundo, numa paixão recíproca e tremenda. A lua-de-mel durou o quê? Uns quinze, dezesseis dias. Mas, no décimo sétimo dia, encontrou-se Aderbal com uns amigos e, no bar, tomando uísque, de disse, por outras palavras, o seguinte: "O homem é polígamo por natureza. Uma mulher só não basta!". Quando chegou em casa, tarde, semibêbado, Clara o interpelou: "Que papelão, sim senhor!". Ele podia ter posto panos quentes, mas o álcool o enfurecia. Respondeu mal; e ela, numa desilusão ingênua e patética, o acusava — "Imagine! Fazer isso em plena lua-de-mel!". A réplica foi grosseira: — Que lua-de-mel? A nossa já acabou! Durante três dias e três noites, Clara não fez outra coisa senão chorar. Argumentava: "se ele fizesse isso mais tarde, vá lá. Mas agora...". A verdade é que jamais foi a mesma. Um mês depois, acusava os primeiros sintomas de gravidez, que o exame médico confirmou. E, então, aconteceu o seguinte: enquanto ela, no seu ressentimento, esfriava, Aderbal se prostrava a seus pés em adoração. Sentimental da cabeça aos pés, não podia ver uma senhora grávida que não se condoesse, que não tivesse uma vontade absurda de protegê-la. Lírico e literário, costumava dizer: "A mulher grávida merece tudo!". No caso de Clara, ainda mais, porque era o seu amor. No fim do período, nasceu uma menina. E foi até interessante: enquanto Clara gemia nos trabalhos de parto, Aderbal, no corredor, experimentava a maior dor de dente de sua vida. Mas ao nascer a criança a nevralgia desapareceu, como por milagre. E, desde o primeiro momento, ele foi, na vida, acima de tudo, o pai. Esquecia-se da mulher ou negligenciava seus deveres de esposo. Mas, jamais, em momento algum, deixou de adorar a pequena Mirna. Incidia em todas as inevitáveis infantilidades de pai. Perguntava: "Não é a minha cara?". Os parentes, os amigos, comentavam: — Aderbal está bobo com a filha!


A esposa

Quando Mirna fez oito anos, ele recebeu uma carta anônima em termos jocosos: "Abre o olho, rapaz!". Pela primeira vez, caiu em si. Começou a observar a mulher. Mãe displicente, vivia em tudo que era festa, exibindo seus vestidos, seus decotes, seus belos ombros nus. Um dia chamou a mulher: "Você precisa selecionar mais suas amizades...". Clara, limando as unhas, respondeu: "Vê se não dá palpite, sim? Sou dona do meu nariz!". Desconcertado, quis insistir. Ela, porém, gritou: "Você nunca me ligou! Nunca me deu a menor pelota!". Aderbal teve que dar a mão á palmatória. — Bem. Eu não me meto mais. Mas quero lhe dizer uma coisa: nunca se esqueça que você tem de prestar contas á sua filha. Foi malcriada: — Ora não amola! Foi esta a última vez. Nunca mais discutiram. Aderbal passou a ser apenas uma testemunha silenciosa e voluntariamente cega da vida frívola da mulher. Tinha uma idéia fixa, que era a filha. Uma vez na vida, outra na morte, dizia á esposa: "Nunca se esqueça que você é mãe". E era só. Agora que Mirna completava quinze anos, D. Margarida invadia-lhe a casa. Discutiram os dois. A velha partia do seguinte principio: Clara era infiel e, portanto, o casal devia separar-se e, depois, desquitar-se. Desesperado, Aderbal teve uma espécie de uivo: "E minha filha?". D. Margarida explodiu: "Ora pílulas!". Ele foi categórico: — Olhe, minha mãe: eu não existo. Compreendeu? Quem existe é a minha filha. Não darei esse desgosto á minha filha, nunca! A velha usou todos os seus argumentos, mas em vão. Aderbal dava uma resposta única e obtusa: "Pode ter amante, pode ter o diabo, mas é mãe de minha filha. E se minha filha gosta dessa mulher ela é sagrada para mim, pronto, acabou-se!". Por fim, já sem paciência, D. Margarida saiu, apoiada na sua bengala de doente. E, da porta, gritou: — Você precisa ter mais vergonha nessa cara!


Pecadora

Uns quarenta minutos depois, Aderbal foi falar com Mirna: "Vem cá, minha filha: você gosta muito de sua mãezinha?". Ela pareceu maravilhada com a pergunta: "Você duvida, papai?". Pigarreou, disfarçando: "Brincadeira minha". Sentada no colo paterno, a pequena, que era parecida com Clara, suspirou. "Gosto muito de mamãe e gosto muito de você". Atormentado, ele deixou passar uns dois dias. No terceiro dia, discutiu com a mulher. E definiu a situação: — Eu sei que você não gosta de mim. Mas respeite, ao menos, sua filha. A discussão podia ter tido um tom digno. Mas Clara estava tão saturada daquele homem que não resistiu. A voz do marido, o gesto, a roupa, as mãos, a pele — tudo a desgostava. Com dezesseis anos de casada, percebia que num casal, pior do que o ódio, é a falta de amor Perdeu a cabeça, disse o que devia e o que não devia. Aderbal quis conservar a serenidade: "Minha filha não pode saber de nada". Então, Clara teve um acinte desnecessário, uma crueldade inútil; interpelava-o: "Você fala de sua filha. E você? Afinal, o marido é você!". Muito pálido, Aderbal emudeceu. Ela continuou, agravando a humilhação do marido: "Ou você vai dizer que não sabe?". Na sua cólera contida, quis sair do quarto. Mas já Clara se colocou na sua frente, resoluta, barrando-lhe o caminho Voltara, há pouco, de uma festa. Estava de vestido de baile, num decote muito ousado, os ombros morenos e nus, perfumadíssima. E, então, com as duas mãos nos quadris, fez a desfeita: — Não vá saindo, não. — E perguntava: — Você não me provocou? Agora agüente! E ele, em voz baixa: — Fale baixo. Sua filha pode ouvir! Sem querer, Clara obedeceu. Falou baixo, mas, pela primeira vez, disse tudo. Assombrado, diante dessa maldade que irrompia, sem pretexto, gratuita e terrível — ele se limitava: "Por que você diz isso? Por quê?". Queria interrompê-la: "Cale-se! Cale-se! Eu não lhe perguntei nada! Eu não quero saber!". Mas a própria Clara não se continha mais: — Você conhece fulano? Seu amigo, deve favores a você, o diabo. Pois ele foi o primeiro! — Fulano? Mentira!... E ela: — Quero que Deus me cegue se minto! Sabe quem foi o segundo? Sicrano! Queres outro? Beltrano. Ao todo, dezessete! Compreendeu? Dezessete! Então, desfigurado, ele disse: — Só não te mato agora mesmo porque minha filha gosta de ti! Disse isso e saiu do quarto.


A filha

Dez minutos depois, de bruços no divã, ele chorava, no seu ódio impotente. E, súbito, sente que uma mão pousa na sua cabeça. Vira-se, rápido. Era a filha que, nas chinelinhas de arminho, no quimono rosa e bordado, descera de mansinho. Ajoelhou-se a seu lado. Desconcertado, passou as costas das mãos, limpando as lágrimas. Então, meiga como nunca, solidária como nunca Mirna disse: "Eu ouvi tudo. Sei de tudo". Lenta e grave, continuou: — Eu não gosto de minha mãe. Deixei de gostar de minha mãe. Ele pareceu meditar, como se procurasse o sentido misterioso dessas palavras. Levantou-se, então. Foi a um móvel e apanhou o revólver na gaveta. Subiu, sem pressa. Diante do espelho, Clara espremia espinhas. Ao ver o marido, pôs-se a rir. Boa, normal, afável com os demais, só era cruel com aquele homem que deixara de amar. Seu riso esganiçado e terrível foi outra maldade desnecessária. Então, Aderbal aproximou-se. Atirou duas vezes no meio do decote.

O defunto

Entrou no quarto, deitou-se na cama, vestido, de paletó, colarinho, gravata, sapatos. Uniu bem os pés; entrelaçou as mãos, na altura do peito; e assim ficou. Pouco depois, a mulher surgiu na porta. Durante alguns momentos esteve imóvel e muda, numa contemplação maravilhada. Acabou murmurando: — O jantar está na mesa. Ele, sem se mexer, respondeu: — Pela ultima vez: morri. Estou morto. A outra não insistiu. Deixou o quarto, foi dizer à empregada que tirasse a mesa e que não faziam mais as refeições em casa. Em seguida, voltou para o quarto e lá ficou. Apanhou um rosário, sentou-se perto da cama: aceitava a morte do marido como tal; e foi como viúva que rezou. Depois do que ela própria fazia nos lotações, nada mais a espantava. Passou a noite fazendo quarto. No dia seguinte, a mesma cena. E só saiu, à tarde, para sua escapada delirante, de lotação. Regressou horas depois. Retomou o rosário, sentou-se e continuou o velório do marido vivo.

O desgraçado

Não mentira ao sogro. Sua vida conjugal era, de fato, de uma melancolia tremenda. Descontado o período da lua-de-mel, que ele estimava em oito dias, nunca mais fora bem tratado. Sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente de visitas. E, certa vez, durante um jantar com outras pessoas, ela o fulmina, com a seguinte observação, em voz altíssima. - Vê se pára de mastigar a dentadura, sim? Houve um constrangimento universal. O pobre do marido, assim desfeiteado, só faltou atirar-se pela janela mais próxima. Após três anos de experiência matrimonial, eleja não esperava mais nada da mulher, senão outros desacatos. E só não compreendia que Jupira, amabilíssima com todo mundo, fizesse uma excepção para ele, que era, justamente, o marido. Depois de Ter deixado o sogro, voltou para casa desesperado. Chega, abre a porta, sobe a escada e quando entra no quarto recebe a intimação: - Não acende a luz! Obedeceu. Tirou a roupa no escuro e, depois, andou caçando o pijama, como um cego. E quando, afinal, pôde deitar-se, fez uma reflexão melancólica: há dez meses ou mesmo um ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois. O máximo que ele, intimidado, se permitia, era roçar com os lábios a face da esposa. Se queria ser carinhoso demais, ela o desiludia: "Na boca não! Não quero!". Outra coisa que o amargurava era o seguinte: a negligência da mulher no lar. Não se enfeitava, não se perfumava. Deitado ao seu lado, ele pensava agora, lembrando-se da teoria do sogro: - "Será que a esposa honesta também precisa cheirar mal?"


O idílio

Foi um namoro tranqüilo, macio, sem impaciências, arrebatamentos. Sob a inspiração paterna, ele planificou o romance, de alto a baixo, sem descurar de nenhum detalhe. Antes de mais nada, houve o seguinte acordo: - Eu não toco em ti até o dia do casamento. Edila pergunta: - E nem me beija? Enfiou as duas mãos nos bolsos: - Nem te beijo. OK? Encarou-o, serena: - OK. Dir-se-ia que este assentimento o surpreendeu. Insinua: - Ou será que você vai sentir falta? - De quê? E Salviano, lambendo os beiços: - Digo falta de beijos e, enfim, de carinho. Sorriu, segura de si: - Não. Estou cem por cento com teu pai. Acho que teu pai está com a razão. Salviano não sabe o que dizer. Edila continua, com o seu jeito tranqüilo: - Sabe que essas coisas não me interessam muito? Eu acho que não sou como as outras. Sou diferente. Vejo minhas amigas dizerem que beijo é isso, aquilo e aquilo outro. Fico boba! E te digo mais: eu tenho, até, uma certa repugnância. Olha como eu estou arrepiada, olha, só de falar nesse assunto!


O inocente

Pôde, assim; desviar da noiva o seu ódio De manhã, passou pela casa de Edila. Com apavorante serenidade, em voz baixa, pediu o nome do culpado. Diante dele, a garota torcia e destorcia as mãos: "Não digo! Tudo, menos isso!". Ele sugeria, desesperado: "Foi o Pimenta?". O Pimenta era o antigo namorado de Edila. Ela dizia: "Não sei, não sei!". Salviano saiu dali certo. Procurou o outro, que conhecia de nome e de vista. Antes que o Pimenta pudesse esboçar um gesto, matou-o, com três tiros, à queima-roupa. E fez mais. Vendo um homem, um semelhante, agonizar aos seus pés, com um olhar de espanto intolerável, ele virou a arma contra si mesmo e estourou os miolos. Mais tarde, desembaraçado o corpo, foi instalada a câmara-ardente na casa paterna. Alta madrugada, havia, na sala, três ou quatro pessoas, além da noiva e de seu Notário. Em dado momento, o velho bate no ombro de Edila e a chama para o corredor. E, lá, ele, sem uma palavra, aperta entre as mãos o rosto da pequena e a beija na boca, com loucura, gana. Quando se desprendem, seu Notário, respirando forte, baixa a voz: — Foi melhor assim. Ninguém desconfia. Ótimo. Voltaram para a sala e continuaram o velório.


O ladrão

Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!" Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: "Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido de noiva!". Para quê? Ela se insultou: - Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim! Chamaram até a policia. O mistério era a verdade, alucinante: quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda - enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero ser enterrado assim".


O Pediatra

Saiu do telefone e anunciou para todo o escritório: - Topou! Topou! Foi envolvido, cercado por três ou quatro companheiros. O Meireles cutuca: - Batata? Menezes abre o colarinho: - "Batatíssima!". Outro insiste: - Vale? Justifica? Fez um escândalo: - Se vale? Se justifica? Ó rapaz! É a melhor mulher do Rio de Janeiro! Casada e te digo mais: séria pra chuchu! Alguém insinuou: - "Séria e trai o marido?". Então, o Menezes improvisou um comício em defesa da bem-amada: - Rapaz! Gosta de mim, entende? De mais a mais, escuta: o marido é uma fera! O marido é uma besta! Ao lado, o Meireles, impressionado, rosna: - Você dá sorte com mulher! Como você nunca vi! - E repetia, ralado de inveja: - Você tem uma estrela miserável!


O velho

Desde menino, Salviano se habituara a prestar contas quase diárias ao pai, de suas idéias, sentimentos e atos. O velho, que se chamava Notário, ouvia e dava os conselhos que cada caso comportava. Durante todo o namoro com Edila, seu Notário esteve, sempre, a par das reações do filho e da futura nora. Salviano, ao terminar as confidências, queria saber: "Que tal, papai?". Seu Notário apanhava um cigarro, acendia-o e dava seu parecer, com uma clarividência que intimidava o rapaz: — Já vi que essa menina tem o temperamento de uma esposa cem por cento. A esposa deve ser, mal comparando, e sob certos aspectos, um paralelepípedo. Essas mulheres que dão muita importância à matéria não devem casar. A esposa, quanto mais fria, mais acomodada, melhor! Salviano retransmitia, tanto quanto possível, para a namorada, as reflexões paternas. Edila suspirava: "Teu pai é uma simpatia!". De vez em quando, o rapaz queria esquecer as lições que recebia em casa. Com uma salivação intensa, o olhar rutilante, tentava enlaçar a pequena. Edila, porém, era irredutível; imobilizava-o: — Quieto! Ele recuava: — Tens razão!


O vestido de noiva

Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espectacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana esse modelo?" A reacção do rapaz foi surpreendente. Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura: - Que beleza, meu Deus! Que maravilha! Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: "Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimónia, brincou: - Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!


Os Noivos

Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou: - Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo. Ele obedeceu: - Pronto, papai. O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo: - Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria? Pra casar? Vermelho, respondeu: - Minhas intenções são boas. O outro esfrega as mãos. - Ótimo! Edila é uma moça direita, moça de família. E o que eu não quero para minha filha, não desejo para a filha dos outros. Agora, meu filho, vou te dar um conselho. Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o pai uma espécie de Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se; põe a mão no ombro do filho: - O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? - E baixa a voz: - É não tocar na pequena, não tomar certas liberdades, percebeu? Assombro de Salviano: "Mas, como? Liberdades, como?". E o pai: - Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e a direito, o que é que acontece? Você enjoa, meu filho. Batata: enjoa! E quando chega o casamento, nem a mulher oferece novidades para o homem, nem o homem para a mulher. A lua-de-mel vai-se por água abaixo. Compreende? Abismado de tanta sabedoria, admitiu: - Compreendi.


Problema matrimonial

Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou: - Está muito bem assim! A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce. Mas a mãe chorou, replicou: "Não, meu filho. seu tio tem razão. Você precisa casar, sim". Atónito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, de pergunta: - Casar pra quê? Por quê? E vocês? - Interpela as irmãs: - Por que vocês não se casaram? A resposta foi vaga, insatisfatória: - Mulher é outra coisa. Diferente.


Sofrimento

A princípio, Filadelfo conjecturou: "É hoje só". No dia seguinte, porém, houve a mesma coisa. Ele coçava a cabeça: "Aqui há dente de coelho!". Coincidiu que, por essa ocasião, os seus sogros aparecessem para jantar. Dr. Magarão, enquanto a mulher conversava com a filha, levou o genro para a janela: "Como é? Como vai o negócio aqui?" Filadelfo exclama: - Estou besta! Estou com a minha cara no chão! O velho empina a barriga de ópera-bufa: - Por quê? E o genro: - Tivemos aquela conversa. Pois bem. Jupira mudou. Está uma seda; e me trata que só o senhor vendo! Ao lado, mascando o charuto apagado, o velho balança a cabeça: - Óptimo! - O negócio está tão bom, tão gostoso, que eu já começo a desconfiar! O sogro põe-lhe as duas mãos nos ombros: - Queres um conselho? De mãe pra filho? Não desconfia de nada, rapaz. Te custa ser cego? Olha! O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido não deve saber nunca!


Teoria

Entram num pequeno bar, ocupam uma mesa discreta. Enquanto o garçon vai e vem, com uma cerveja e dois copos, dr. Magarão comenta: - Você sabe que eu sou casado, claro. Muito bem. E, além da minha experiência, vejo a dos outros. Descobri que toda mulher honesta é assim mesmo. Espanto de Filadelfo: - Assim como? O gordo continua: - Como minha filha. Sem tirar, nem pôr. Você, meu caro, desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste azeda e neurasténica. Filadelfo recua na cadeira: - Tem dó! Essa não! - E repetia, de olhos esbugalhados, lambendo a espuma da cerveja: - Essa, não! Mas o sogro insistiu. Pergunta: - Sabe qual foi a esposa mais amável que eu já vi na minha vida? Sabe? Foi uma que traia o marido com a metade do Rio de Janeiro, inclusive comigo! Espalmou a mão no próprio peito, numa feroz satisfação retrospectiva: Também comigo! E tratava o marido assim, na palma da mão! Uma hora depois, saiam os dois do pequeno bar. Dr. Magarão, com sua barriga de ópera-bufa e bêbado, trovejava: - Você deve se dar por muito satisfeito! Deve lamber os dedos! Dar graças a Deus! O genro, com as pernas bambas, o olho injectado, resmunga: - Vou tratar disso!


Um dia sem assaltos

Imaginemos que um milionário paulista, não tendo mais o que fazer, resolva contratar um gramático. Seria tempo perdido. Podia anunciar nos classificados: — "PRECISA-SE de um gramático etc. etc.". Não encontraria um. No Brasil de hoje, é mais fácil achar uma girafa do que um gramático. E, no entanto, vejam vocês: — houve um tempo em que o brasileiro gostava de escrever certo e de falar certo. Mas os usos, o gosto, os valores mudam, obviamente, de geração para geração. Lembro-me de um jogador de futebol. Um locutor volante, antes do jogo, atropelou um craque. E este disse: — "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor, esfuziante, resolveu prolongar a entrevista. Perguntou: — "Vocês vão jogar o quatro-três-três ou o quatro-dois-quatro?". Há uma pausa aterrada. Bem se via que o jogador estava preparado para uma pergunta e não para duas. Pensa, pensa e, súbito, baixa-lhe a inspiração. Responde: — "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor exulta: — "Acabaram de ouvir" etc. etc. Eis o que eu queria dizer: — nunca se falou tão errado, nem se escreveu tão errado. Mas, coisa curiosa. Talvez por isso mesmo a língua brasileira ganhou em plasticidade, sim, lucramos em música verbal. E se, por acaso, ainda existir algum neto retardatário e obsoleto dos antigos gramáticos, será ele o primeiro a fingir-se analfabeto. Há, porém, uma figura que fala corretissimamente, sem os nossos freqüentes deslizes gramaticais: — o ladrão de banco. Assalta com a metralhadora e com a gramática. Nunca me esqueço do filme Dillinger, que passou, no Rio, há uns dez anos. Era a biografia do famoso bandido. A estréia foi, se não me engano, numa segunda-feira, e no Rex. Entre parênteses, o Rex é um cinema que já nasceu velho. No dia de sua inauguração, parecia contemporâneo da primeira batalha do Marne e do fuzilamento de Mata-Hari. E outra singularidade: — desde o primeiro dia de vida, o Rex teve pulgas voracíssimas. Vi o anúncio e decidi: — "Esse, eu não perco". Filme de gangster é, naturalmente, uma preferência comprometedora. E, portanto, escolhi a última sessão, que seria a mais vazia. Às dez para as dez, estava na bilheteria. Imaginei que só eu, entre 5 milhões de cariocas, estaria interessado em Dillinger. Mas chego lá e caio das nuvens. Cinema entupido. E não se pense que eram marginais, desclassificados de ambos os sexos, que estavam lá. Vi grã-finos, intelectuais, ministros, banqueiros e, até, um pastor protestante. Por que o brasileiro tem essa fascinação pelo filme de gangster? Era a pergunta que eu me fazia, sem lhe achar resposta. E observei que todos,
inclusive eu, tínhamos vergonha de estar ali. Mas vimos o filme. Como se sabe, Dillinger foi um dos mais espantosos ladrões de banco de sua época. Mas uma das passagens que gelaram a platéia de maravilhado horror foi a seguinte: — o gangster estava na casa de dois velhinhos. Marido e mulher teriam seus oitenta anos. Daí para mais. E, súbito, o bandido vê o velhinho cochichando no telefone. Desconfiou. A simples suspeita bastou. Assassinou o casal, a machadadas. Houve, no cinema, um silêncio de rebentar os tímpanos. Os assaltos aos bancos deliciavam a platéia. Quando acabou, ouvi uma grã-fina sussurrar para outra grã-fina: — "Que homem! Que homem!". A outra respondeu, baixinho também: — "Com esse, eu me casava!". A sensação que tive foi a de que éramos uma platéia de ladrões de banco e assassinos de velhinhos. O que eu queria dizer é que tenho pensado muito no filme do bandido. Pela primeira vez no Brasil assalta-se banco e repito: — assaltar bancos tornou-se uma rotina da cidade. O leitor de jornal sente-se frustradíssimo quando passa um dia sem assalto. Ainda ontem ou anteontem, dizia um meu amigo, quase irritado: — "Hoje ninguém assaltou". E o pior é que ninguém se espanta. Ou, na melhor das hipóteses, há um espanto sem terror. O fato adquire uma naturalidade cínica. Todos parecem raciocinar nos seguintes termos: — se podemos depositar nos bancos, abrir contas, fazer cheques, também podemos assaltá-los. No cinema e, pois, na ficção, o mesmo assalto tem uma outra e apaixonante dimensão. O incidente passa sem nenhum apelo emocional. E reparem como não há nem um relativo susto. Senhoras gordas continuam levando suas contas da luz e do telefone; os depositantes comparecem; os caixas pagam e recebem; o gerente boceja na sua mesa ou discute futebol. Ninguém pensa que, a qualquer momento, pode levar uma rajada de metralhadora. Se me perguntassem por que não há horror, eu diria: — o horror exige retórica. Nos bons tempos, havia o conselheiro Rui Barbosa. E nada acontecia, no Brasil e no mundo, que não tivesse o seu orador. Houve o desastre da "barca Sétima". Morreram, digamos, cem crianças. Não tenho nenhuma certeza numérica. Mas, digamos: — cem. O conselheiro Rui Barbosa ocupou a tribuna. E o que fazia chorar, mais do que as mortes, o luto das famílias, os enterros, era a retórica do conselheiro. Hoje, não há um brasileiro, vivo ou morto, que não use, com efusão e abundância, o erro de português. Nos bons tempos, todo mundo falava certo e escrevia certo. Era a eloqüência com gramática. Rui foi, do berço ao túmulo, o gramático irremediável. Poderei dizer, sem exagero, que a sua glória é, sobretudo, gramatical. Nada mais correto do que sua frase. Pois bem. Repito: — cada acontecimento íntimo ou coletivo, doméstico ou político, tinha o seu Rui. Fosse batizado, noivado, enterro, aniversário, a retórica era fatal. Hoje, falta um Rui, ainda que modesto, ainda que menor, para estimular o nosso espanto, o nosso horror, a nossa indignação. E, além disso, a imprensa brasileira moderna vive da objetividade. Não há mais, como nas gerações românticas, uma única e escassa metáfora. Lembro-me, agora, de uma velha tragédia. Imaginem que dois estudantes foram mortos, ali, no largo de São Francisco. Um repórter maluco correu para a redação e criou uma metáfora que era assim: — "Primavera de sangue". E a metáfora, a simples metáfora, levantou o país. Eis o que eu queria dizer: — como não há mais tribunos, substituímos a retórica e a gramática do Rui pela piada. Os ladrões de banco não inspiram o nosso medo, o nosso espanto, o nosso horror; tampouco justificam uma providência prática da polícia. Mas o povo faz dos assaltos um novo filão de piadas. Os bandidos trancam os presentes nos banheiros. E já se diz que as bancárias querem banheiros de Paulina Bonaparte, com bicas de ouro, leite de cabra, e crocodilos deslizando sem marola etc. etc. Reparem, ao mesmo tempo, como os nossos gangsters são de um alegre cinismo. O último banco estava a dois passos de uma delegacia, a dois passos de outra delegacia e pertinho do Palácio do Exército. Não houve nem atropelo nem risco. E todos fazem a divertida constatação: — é mais arriscado atravessar uma rua do que assaltar um banco. (Texto publicado em 3 de abril de 1969)

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