Miscelâneas do Eu

Expressar as ideais, registrar os pensamentos, sonhos, devaneios num pequeno e simplório blog desta escritora amadora que vos fala são as formas que encontrei para registrar a existência neste mundo.

Não cabe a mim julgar certo ou errado e sim, escrever o que sinto sobre o que me cerca.

A única coisa que não abro mão é do amor pelos seres humanos e incompreensão diante da capacidade de alguns serem cruéis com sua própria espécie.

Nana Pimentel

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Alexandre Guy de Maupassant


1 Naquele dia, às quatro horas, como todos os dias, Alexandre conduziu até a porta da pequena residência do casal Maramballe a cadeira de rodas, com a qual levava a passear, por ordem médica, sua velha e impotente patroa. 2 Colocou o leve veículo no degrau, precisamente onde podia fazer subir a gorda senhora, entrou na residência, e logo se escutou, no interior, uma voz furiosa, uma voz enrouquecida de velho soldado, que vociferava blasfêmias: era a do patrão, o ex-capitão de infantaria aposentado, Joseph Maramballe. 3 Seguiu-se ruído de portas fechadas com violência, ruído de cadeiras empurradas, ruído de passos agitados, depois nada mais e, após alguns instantes, Alexandre reapareceu na soleira da porta, segurando com toda força a senhora Maramballe, extenuada pela descida da escada. Após colocá-la, não sem esforço, na cadeira de rodas, Alexandre passou por trás, pegou a barra que servia para empurrar o veículo e seguiu em direção à margem do rio. 4 Eles atravessavam assim todos os dias a cidadezinha, em meio a cumprimentos respeitosos que se endereçavam tanto ao servidor como à patroa, pois se ela era amada e considerada por todos, ele era tido, esse velho soldado de barbas brancas como as de um patriarca, o modelo dos empregados. 5 O sol de julho caía brutalmente sobre a rua, inundando as casas baixas com sua luz triste, extremamente ardente e forte. 6 Cachorros dormiam sobre as calçadas à sombra dos muros. Alexandre, resfolegando um pouco, apressava o passo a fim de chegar mais rápido à avenida que levava ao rio. 7 A senhora Maramballe já dormitava sob sua sombrinha branca, cuja ponta, solta, algumas vezes ia se apoiar no rosto impassível do homem. 8 No momento em que atingiram a alameda Tilleuls, ela despertou imediatamente sob a sombra das árvores, e disse com uma voz afável:
 9 — Mais devagar, meu pobre rapaz. Assim você vai se matar com esse calor.
10 Ela não pensa, no seu egoísmo ingênuo, que, se desejava ir mais devagar, era justamente porque acabavam de ganhar o abrigo das folhas.
11 A pequena distância desse caminho coberto por velhas tílias talhadas em abóbadas, a Embarcação deslizava num leito tortuoso entre duas cercas de salgueiro. O borbulhar das contracorrentes, os respingos sobre as rochas, os bruscos rodeios de corrente, semeavam, ao longo desse passeio, uma doce canção de água e um frescor de ar molhado
12 Após ter longamente respirado e saboreado o encanto úmido desse lugar, a senhora Maramballe murmurou:
13 — Vamos, agora está tudo bem. Hoje ele não estava muito bem comportado.
 14 Alexandre respondeu:
 15 — Realmente, senhora.
16 Há 35 anos ele está a serviço dessa família, primeiro como ordenança do oficial, depois como simples criado que não quis deixar seus patrões; e há seis anos passeia toda a tarde com sua patroa pelos estreitos caminhos ao redor da cidade.
 17 Desse longo serviço devotado, dessa conversação cotidiana, resultou entre a velha senhora e o velho servidor uma espécie de familiaridade, afetuosa nela, deferente nele.
 18 Falavam dos negócios da casa como se faz entre iguais. O principal tema de conversa e inquietação entre eles era, aliás, o mau gênio do capitão, amargurado por uma longa carreira debutada com brilho, corrida sem avanços e terminada sem glória.
 19 A senhora Maramballe retomou:
 20 — Ele foi muito mal educado. Isso tem acontecido com frequência desde que deixou o serviço.
 21 Alexandre, com um suspiro, completou o pensamento de sua patroa:
22 — Ora, senhora, pode-se dizer que acontece todos os dias e que acontecia também antes dele ter deixado o exército.
23 — É verdade. Mas ele não teve sorte, coitado. Por um ato de bravura foi condecorado aos vinte anos, e dos vinte aos cinquenta não passou de capitão, quando contava, pelo menos, chegar a coronel na aposentadoria.
24 — Apesar de tudo, senhora, pode-se dizer que a culpa foi dele. Se não tivesse sido sempre suave como um coice, seus chefes o teriam amado e protegido mais. De nada serve ser rude. É preciso agradar às pessoas para ser querido. Que ele nos trate dessa maneira, a culpa é nossa, já que nos agrada ficar ao seu lado. Mas com os outros é diferente.
25 A senhora Maramballe refletia. Há anos pensava todos os dias nas brutalidades do marido que tinha outrora desposado, há muito tempo, porque era um belo oficial, condecorado bem jovem, e cheio de futuro, diziam. Como nos enganamos na vida!
26 Ela murmurou:
 27 — Paremos um pouco, meu pobre Alexandre, e repouse no banco.
28 Era um pequeno banco de madeira, em parte podre, colocado na curva da alameda para os passeantes de domingo.
29 Toda vez que passavam nesse ponto, Alexandre costumava respirar alguns minutos no banco.
30 Sentou tomando nas mãos, num gesto familiar e cheio de orgulho, sua bela barba branca aberta como um leque. Agarrou-a e escorregou a mão, fechando os dedos na ponta, retendo-a por uns instantes sobre a cavidade do estômago, como que para fixá-la ali e constatar, mais uma vez, o comprimento dessa vegetação.
31 A senhora Maramballe retomou:
32 — Eu, o desposei; é justo e natural que suporte suas injustiças, mas o que não compreendo é que você tenha também que aturá-lo, meu bravo Alexandre!
33 Ele fez um vago movimento com os ombros e disse apenas:
34 — Oh! Eu... senhora.
35 Ela acrescentou:
36 — De fato. Sempre pensei. Você era seu ordenança quando o desposei e não podia agir de outra maneira senão suportá-lo. Mas, depois, por que permaneceu conosco, que lhe pagamos tão pouco e o tratamos tão mal, já que poderia fazer como todo mundo, estabelecer-se, casar, ter filhos, formar uma família?
37 Ele repetiu: abril educação — Oh! Eu, senhora... Não é isso. Depois se calou, mas puxava a barba como se badalasse um sino, como se tentasse arrancá-la, revirava os olhos assustados, imerso no embaraço.
39 A senhora Maramballe seguia seu pensamento.
40 — Você não é camponês. Recebeu educação.
 41 Ele interrompeu com orgulho:
 42 — Estudei para ser agrimensor, senhora.
43 — Então, por que permaneceu ao nosso lado, estragando sua existência?
44 Ele balbuciou:
45 — A vida é assim! É culpa de minha natureza.
46 — Como assim, de sua natureza?
47 — Quando eu me apego, me apego e está terminado.
48 Ela riu.
 49 — Vejamos, você não vai me fazer crer que o bom comportamento e a doçura de Maramballe o prenderam por toda a vida?
50 Ele se agitava sobre o banco, visivelmente perdido e resmungou entre os longos pelos de seu bigode:
51 — Não por ele, mas pela senhora.
 52 A velha dama, que tinha o rosto muito doce, coroado entre a testa e a cabeleira por uma linha, branca como a neve, de cabelos ondulados, enrolados todos os dias com cuidado e brilhantes como as plumas de um cisne, fez um movimento na cadeira de rodas e contemplou seu criado com os olhos surpresos.
53 — Eu, meu pobre Alexandre? Como assim?
54 Ele olhou para o céu, depois de lado, depois ao longe, girando a cabeça, como fazem os homens tímidos forçados a confessar segredos íntimos. Depois, calou-se e declarou com a coragem de soldado a quem se ordena enfrentar a linha de fogo:
 55 — Foi assim: na primeira vez que levei à senhorita uma carta do tenente e a senhorita me deu vinte soldos e um sorriso, ficou tudo decidido.
 56 Ela insistia, compreendendo mal.
 57 — Vejamos. Explique.
58 Então, ele afirmou com o pavor de um miserável que, perdido, confessa um crime:
59 — Eu tive um sentimento pela senhora. Eis tudo.
60 Ela nada respondeu, parou de olhá-lo, baixou a cabeça e pensou. Era boa, correta, cheia de doçura, inteligente e sensível.
61 Ela pensou, num segundo, no imenso devotamento desse pobre ser que havia renunciado a tudo para viver ao seu lado sem nada dizer. Teve vontade de chorar.
 62 Depois, com semblante mais grave, mas nem um pouco zangada:
 63 — Voltemos — disse ela.
64 Ele se levantou, ficou atrás da cadeira de rodas, e começou a empurrá-la.
65 Quando se aproximavam da cidade, perceberam, no meio do caminho, o capitão Maramballe vindo na direção deles.
66 Assim que se encontraram, o capitão disse à sua mulher com visível desejo de se irritar:
67 — O que teremos para o jantar?
 68 — Um franguinho e feijão branco.
69 Ele se encolerizou. abril educação –
 70 — Um frango, ainda frango, sempre frango, meu Deus! Você não tem outra ideia na cabeça além de me fazer comer todos os dias a mesma coisa?
71 Ela respondeu, resignada:
 72 — Mas, meu querido, você sabe que o doutor receitou. É ainda o que há de melhor para seu estômago. Se não tivesse o estômago doente, eu o faria comer coisas que não ouso servir.
 73 Então ele se plantou, exasperado, diante de Alexandre:
74 — É culpa deste imbecil se tenho o estômago doente! Há 35 anos que me envenena com sua cozinha suja!
75 A senhora Maramballe, bruscamente, virou a cabeça no mesmo instante para observar o velho empregado. Seus olhos então se encontraram e ambos disseram, neste único olhar: “Obrigado”.
                                Tradução de Solange Lisboa. In Contos Universais. Série Para Gostar de ler. vol. 11. 8a ed. São Paulo: Ática, 2002.
 A história passa-se no século XIX. Considerando o desenvolvimento temporal da narrativa, responda:
 a) A narração abrange quantos anos da convivência entre Alexandre e o casal Maramballe?
 b) Explique por que podemos afirmar que este conto é apenas o ponto culminante de uma longa história?
 Este conto pode ser considerado é uma história de amor, mas, ao mesmo tempo, como sempre ocorre nas obras de Guy de Maupassant, possui algumas características próprias da narrativa de mistério.
a) Em quais parágrafos se formula claramente “um mistério”?
b) Em qual parágrafo ocorre a solução desse mistério? Explique.
c) Revelado o mistério, pode-se perceber, retrospectivamente, que o narrador distribuiu alguns índices que possibilitavam ao leitor formular uma previsão. Indique pelo menos dois desses índices.

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