Miscelâneas do Eu

Expressar as ideais, registrar os pensamentos, sonhos, devaneios num pequeno e simplório blog desta escritora amadora que vos fala são as formas que encontrei para registrar a existência neste mundo.

Não cabe a mim julgar certo ou errado e sim, escrever o que sinto sobre o que me cerca.

A única coisa que não abro mão é do amor pelos seres humanos e incompreensão diante da capacidade de alguns serem cruéis com sua própria espécie.

Nana Pimentel

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A CONSULTA


Nosso herói, Coitado de Tal, é um trabalhador doente, com dores constantes. Já procurou terreiro, curadores, tomou chás, fez “simpatias”. Agora, vai tentar a medicina. Está diante de um médico, no consultório. Conseguirá  a cura para o seu mal? Leia o texto teatral para saber.
A CONSULTA
Domingos Pellegrini
1. Doutor: Bom dia. (Examina rapidamente a ficha de Coitado, que uma secretária trouxe) Coitado de Tal – confere, seu Coitado?
2. Coitado: Sou eu mesmo, doutor.
3. Doutor: Quarenta e dois anos, casado, rua 1º de Maio – confere?
4. Coitado: Confere, doutor, sou eu mesmo.
5. Doutor: Porque tem muito Coitado de Tal no fichário, pode confundir.
6. Coitado: Mas por falar em coitado, doutor, eu vim aqui porque…
7. Doutor: O senhor pode ficar à vontade. (Faz Coitado sentar ao lado de uma máquina registradora) Muito bem, vamos com isso – o que é que o senhor sente, seu Coitado?
8. Coitado: Bom, doutor, eu sinto que estou morrendo.
9. Doutor: (Vai anotando na ficha) Muito bem, então o senhor sente que está morrendo. Todo dia, seu Coitado?
10. Coitado: Todo dia, doutor. Tem dia que eu acho até que já morri, de tanta dor e fraqueza.
11. Doutor: (Anotando) Acha que já morreu, muito bem. O senhor precisa ver um médico da cabeça, seu Coitado, um psiquiatra. Vou dar o endereço de um para o senhor. (Aciona a manivela da caixa registradora, tira um cartão da gaveta) O senhor entregue a ele este cartão, diga que fui eu quem mandei.
12. Coitado: Muito obrigado, doutor – mas o senhor acha que o caso é na cabeça?
13. Doutor: Não se incomode, seu Coitado, que o senhor já morreu. Mas me diga: e a urina?
14. Coitado: Pois é, doutor, a urina…
15. Doutor: Era o que eu pensava – vou indicar pro senhor um especialista em urina, um urologista. (Retira mais um cartão da registradora, entrega a Coitado) E as tonturas, seu Coitado?
16. Coitado: Que tontura, doutor?
17. Doutor: O senhor não disse que sente umas tonturas?
18. Coitado: Deve ter sido outro coitado, eu não, doutor.
19. Doutor: O senhor não deve esconder nada do médico, eu estou aqui para ajudar o senhor.
20. Coitado: Pois é, doutor, mas…
21. Doutor: Se o senhor me sonega alguma informação eu não posso estruturar o quadro clínico simplesmente porque foi solapada a anamnese, e o levantamento sindromático é  base do quadro clínico. Toda a moderna medicina está pautada no relacionamento médico-paciente, entre os quais a confiança é fundamental.
22. Coitado: O senhor tem razão, doutor, eu… eu não sabia que estava tão ruim.
23. Doutor: Então só me responda sim ou não, por favor.
24. Coitado: Tá certo, doutor, mas é que com tanta pergunta eu fico até meio tonto…
25. Doutor: Ah! Que tipo de tontura, seu Coitado?
26. Coitado: O senhor quem sabe, ué, doutor.
27. Doutor: Não, não sei, seu Coitado, isto requer um especialista – vou indicar para o senhor um ótimo neurologista. (Retira um cartão da registradora, entrega a Coitado) E o apetite vai bem?
28. Coitado: O meu, doutor? Nem me fale…
29. Doutor: Não vou falar nada mesmo, seu Coitado, quem vai falar é um especialista – vou indicar um ótimo apetitista para o senhor. (Outro cartão)
30. Coitado: Muito obrigado, doutor, mas o que eu sinto mesmo…
31. Doutor: Com um bom tratamento o senhor não vai sentir mais nada. (Rapidamente levanta a camisa de Coitado e lhe ausculta as costas com o estetoscópio) Respire fundo. (Entra a enfermeira)
32. Enfermeira: Telefone da clínica, doutor.
33. Doutor: (Transfere o estetoscópio para o peito de Coitado) O senhor segura isto aqui no peito, assim, e vai respirando fundo. (O doutor sai. Coitado fica segurando o estetoscópio no peito e respirando fundo. Depois de algum tempo, o doutor volta, retira o estetoscópio)
34. Doutor: Muito bem, seu Coitado. (Anota na ficha) Abra a boca e os olhos bem abertos. (Examina boca e olhos ao mesmo tempo) Deita. (Faz Coitado deitar rapidamente, lhe enfia o termômetro na boca, enquanto lhe apalpa a barriga e lhe dá pancadinhas com os dedos e marteladas nos joelhos) Sente alguma coisa, seu Coitado? Dói aqui? O que é que o senhor sente quando aperto aqui? E me diga uma coisa: o senhor bebe muito?
35. Coitado: Eu…
36. Doutor: Então o senhor controla a bebida, seu Coitado, controla para seu próprio bem. Pode levantar.
37. Enfermeira: (Entrando rapidamente de novo) Estão chamando da clínica, doutor.
38. Doutor: Vou receitar uns medicamentos (vai escrevendo a receita), mas o senhor não deve deixar de seguir as outras orientações.
39. Coitado: Mas, doutor, eu queria saber…
40. Doutor: O senhor não se incomode que isso vai passar, na vida tudo passa. O senhor volte aqui me trazendo um relatório de cada um dos especialistas que indiquei, e mais resulktados de raio-x e dos outros exames que eles pedirem, de sangue, de urina, de fezes, eletroencefalograma, etc.
41. Coitado: Mas até lá eu posso estar morto, doutor…!
42. Doutor: O senhor já morreu demais, seu Coitado.
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Após a leitura do texto teatral, responda a estas questões:
1. Que diferença há entre doutor e médico?
2. Nas frases abaixo foi usada a palavra “simpatia” com significados diferentes. Dê o significado da palavra usada em cada frase.
a)     A simpatia dessa mulher me faz esquecer que ela é muito feia.
b)     Tomara que dê certo a simpatia que ela ensinou.
3. No texto teatral, há dois instrumentos médicos: estetoscópio e termômetro. Para serve cada um deles?
4. O paciente não entendeu a fala do médico (parágrafo 21) e supôs que, pelo palavreado, estivesse muito mal. Como você daria essa mesma explicação de modo que o paciente entendesse?
5. A medicina atual é altamente especializada e, por isso, muita gente se atrapalha na escolha de médico. Complete as lacunas com a palavra correta da especialidade médica a que se refere a frase:
a) Eu tive uns problemas de urina e fui a um _________________
b) Minha prima teve umas complicações próprias de mulher e procurou um _____________________
c) Meu sobrinho teve uns problemas nos pulmões e consultou um ________
d) Eu estou com uns problemas de vista. Vou ao ______________
e) Estou com meu coração batendo muito depressa e sempre me  dá falta de ar. Que você aconselha? Vá a um ________
f) Estou com problemas de falta de dinheiro. O que eu faço? Ora, vá… (trabalhar!)
6. Podemos afirmar que o paciente procurou o médico tão logo percebeu sintomas de doença? Explique.
7. Dando ao paciente o nome de Coitado de Tal, o autor pretendeu:
a. (   ) demonstrar que as tentativas de cura fora da medicina maltratam as pessoas.
b. (   ) fazê-lo representar qualquer pessoa, sem lhe atribuir individualidade.
c. (  ) evitar que o nome coincidisse com o de qualquer outra pessoa e a melindrasse.
d. (   ) deixar claro que todos os doentes são iguais e merecem tratamentos iguais.
8. Que especialistas o médico indicou ao paciente?
9. No Parágrafo 22, Coitado de Tal disse: “eu não sabia que estava tão ruim”. O que o fez pensar assim?
10. A enfermeira interrompeu a consulta duas vezes para anunciar chamado da clínica. O modo de agir do médico nas duas ocasiões insinua que ele:
a. (   ) resolvia os casos de sua clínica por telefone, em horário de atendimento aos pacientes.
b. (   ) dava prioridade a quem o procurava pessoalmente.
c. (   ) considerava inoportunos os telefonemas da clínica.
d. (   ) se preocupava muito mais com sua clínica particular.
11. A caixa registradora é um elemento estranho a um consultório médico. Por que o autor a incluiu no cenário?
12. Na sua opinião, a medicina é um comércio ou apenas há médicos que fazem da medicina um comércio?



















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